{"id":2959,"date":"2026-02-10T08:16:39","date_gmt":"2026-02-10T11:16:39","guid":{"rendered":"https:\/\/abtelecom.org.br\/site\/?p=2959"},"modified":"2026-02-10T08:21:16","modified_gmt":"2026-02-10T11:21:16","slug":"5g-em-sao-luis-infraestrutura-avancada-desafios-reais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/abtelecom.org.br\/site\/5g-em-sao-luis-infraestrutura-avancada-desafios-reais\/","title":{"rendered":"5G em S\u00e3o Lu\u00eds: infraestrutura avan\u00e7ada, desafios reais"},"content":{"rendered":"<p>Como densidade de antenas, qualidade do sinal e otimiza\u00e7\u00e3o da rede explicam a experi\u00eancia do usu\u00e1rio<\/p>\n<p>S\u00e3o Lu\u00eds j\u00e1 conta com uma infraestrutura 5G numericamente robusta, com centenas de c\u00e9lulas em opera\u00e7\u00e3o e metas regulat\u00f3rias formalmente atendidas. Ainda assim, reclama\u00e7\u00f5es sobre varia\u00e7\u00f5es de desempenho fazem parte do cotidiano de muitos usu\u00e1rios. Essa aparente contradi\u00e7\u00e3o ajuda a entender por que o 5G, apesar de tecnologicamente avan\u00e7ado, n\u00e3o pode ser avaliado apenas pelo n\u00famero de antenas ou pela exist\u00eancia de cobertura nominal. A experi\u00eancia real do usu\u00e1rio depende de uma combina\u00e7\u00e3o de fatores, entre eles a densidade celular, a qualidade efetiva do sinal e o processo cont\u00ednuo de otimiza\u00e7\u00e3o das redes.<\/p>\n<p>A densidade de antenas 5G \u00e9 um dos principais indicadores do est\u00e1gio de implanta\u00e7\u00e3o da nova gera\u00e7\u00e3o de redes m\u00f3veis. Mais do que sinalizar a simples presen\u00e7a da tecnologia, esse par\u00e2metro revela a densidade de c\u00e9lulas ativas, elemento fundamental para garantir capacidade, estabilidade e qualidade de servi\u00e7o. No Maranh\u00e3o, e especialmente em S\u00e3o Lu\u00eds, essa an\u00e1lise ganha relev\u00e2ncia quando observada \u00e0 luz dos compromissos assumidos pelas operadoras no leil\u00e3o de radiofrequ\u00eancias conduzido pela Ag\u00eancia Nacional de Telecomunica\u00e7\u00f5es, que estabeleceu metas m\u00ednimas de cobertura proporcionais ao tamanho da popula\u00e7\u00e3o dos munic\u00edpios.<\/p>\n<p>Dados do Painel Mapa das Antenas, dispon\u00edvel no s\u00edtio eletr\u00f4nico da Conexis Brasil Digital, indicam que S\u00e3o Lu\u00eds possui atualmente 477 c\u00e9lulas 5G em opera\u00e7\u00e3o, distribu\u00eddas em esta\u00e7\u00f5es r\u00e1dio base. Desse total, a Vivo opera 161 c\u00e9lulas, a Claro 156, a TIM 154, enquanto a Brisanet mant\u00e9m 6 c\u00e9lulas 5G na capital. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica, a popula\u00e7\u00e3o estimada de S\u00e3o Lu\u00eds em 2025 era de 1.089.215 habitantes, dado essencial para avaliar o atendimento \u00e0s metas regulat\u00f3rias.<\/p>\n<p>Pelas regras do leil\u00e3o, at\u00e9 31 de julho de 2026, munic\u00edpios com popula\u00e7\u00e3o superior a 200 mil habitantes devem contar, para cada prestadora, com pelo menos uma c\u00e9lula 5G a cada 15 mil habitantes. No caso de S\u00e3o Lu\u00eds, isso corresponde a um m\u00ednimo de 73 c\u00e9lulas 5G por operadora. A compara\u00e7\u00e3o com a infraestrutura atualmente instalada indica que Vivo, Claro e TIM superam com ampla margem esse patamar m\u00ednimo, operando com densidade de c\u00e9lulas superior ao dobro do exigido. A Brisanet, por sua vez, apresenta uma implanta\u00e7\u00e3o inicial, compat\u00edvel com seu perfil de operadora regional.<\/p>\n<p>Os dados de cobertura divulgados pela ANATEL refor\u00e7am essa leitura. Em S\u00e3o Lu\u00eds, 98,24% da popula\u00e7\u00e3o encontra-se em \u00e1rea de cobertura m\u00f3vel, percentual que alcan\u00e7a 98,71% da popula\u00e7\u00e3o urbana. Nas \u00e1reas classificadas como rurais, a cobertura atinge 36,68%, refletindo tanto caracter\u00edsticas geogr\u00e1ficas quanto a l\u00f3gica t\u00e9cnica de implanta\u00e7\u00e3o das redes, que priorizam regi\u00f5es com maior concentra\u00e7\u00e3o populacional e maior demanda por tr\u00e1fego de dados.<\/p>\n<p>\u00c9 importante registrar que, a partir de setembro de 2024, houve um ajuste metodol\u00f3gico relevante na forma de estimar a cobertura das tecnologias 4G e 5G, com a revis\u00e3o dos limiares m\u00ednimos de pot\u00eancia recebida de \u2212110 dBm para \u221290 dBm. Essa mudan\u00e7a reduziu as \u00e1reas classificadas como cobertas, mas elevou substancialmente o patamar m\u00ednimo de qualidade do sinal adotado nas predi\u00e7\u00f5es, tornando os mapas de cobertura mais aderentes \u00e0 experi\u00eancia real do usu\u00e1rio. Trata-se de um aprimoramento inserido em um arcabou\u00e7o regulat\u00f3rio voltado \u00e0 avalia\u00e7\u00e3o conjunta da cobertura e da qualidade das redes de comunica\u00e7\u00f5es m\u00f3veis, alinhado \u00e0s melhores pr\u00e1ticas internacionais.<\/p>\n<p>Para o leitor n\u00e3o familiarizado com termos t\u00e9cnicos, vale esclarecer que o dBm expressa a pot\u00eancia do sinal recebido pelo aparelho. Quanto mais negativo o valor, mais fraco \u00e9 o sinal. Um crit\u00e9rio de \u2212110 dBm admite sinais muito fracos, normalmente associados a baixa rela\u00e7\u00e3o sinal-interfer\u00eancia e ru\u00eddo, enquanto o crit\u00e9rio de \u221290 dBm exige sinais mais fortes, compat\u00edveis com valores mais elevados de SINR, condi\u00e7\u00e3o essencial para maiores velocidades e menor taxa de erros.<\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica, a ado\u00e7\u00e3o de limiares mais elevados reduz o raio efetivo de cobertura de cada c\u00e9lula. Isso resulta em menor \u00e1rea atendida por c\u00e9lula e exige, portanto, maior densifica\u00e7\u00e3o da rede. Como consequ\u00eancia, essa densifica\u00e7\u00e3o pode levar a uma eleva\u00e7\u00e3o da interfer\u00eancia co-canal, a qual precisa ser controlada por meio de planejamento criterioso e de processos cont\u00ednuos de otimiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Outro aspecto t\u00e9cnico relevante diz respeito ao uso da faixa de 3,5 GHz, principal frequ\u00eancia do 5G no Brasil. Embora essa faixa permita maior capacidade e velocidades mais elevadas, apresenta caracter\u00edsticas de propaga\u00e7\u00e3o diferentes das frequ\u00eancias mais baixas utilizadas no 4G. Em termos pr\u00e1ticos, sinais em 3,5 GHz sofrem maior atenua\u00e7\u00e3o, t\u00eam menor alcance e s\u00e3o mais sens\u00edveis a obst\u00e1culos f\u00edsicos, como paredes, edifica\u00e7\u00f5es e vegeta\u00e7\u00e3o. Como consequ\u00eancia, a cobertura de cada c\u00e9lula tende a ser menor, podendo surgir \u00e1reas de sombra em locais onde, com frequ\u00eancias mais baixas, anteriormente havia cobertura satisfat\u00f3ria. Esse efeito n\u00e3o representa uma regress\u00e3o tecnol\u00f3gica, mas sim uma caracter\u00edstica f\u00edsica da propaga\u00e7\u00e3o em frequ\u00eancias mais altas, refor\u00e7ando a necessidade de maior densifica\u00e7\u00e3o da rede, planejamento cuidadoso e otimiza\u00e7\u00e3o cont\u00ednua.<\/p>\n<p>Para compreender por que o simples aumento de pot\u00eancia n\u00e3o resolve problemas de cobertura, \u00e9 fundamental considerar que as redes de telefonia celular est\u00e3o sujeitas a interfer\u00eancias inerentes ao pr\u00f3prio sistema. A interfer\u00eancia co-canal decorre da natureza autointerferente dos sistemas celulares, cuja arquitetura se baseia no reuso de frequ\u00eancias. Nessas condi\u00e7\u00f5es, a qualidade da comunica\u00e7\u00e3o passa a depender fundamentalmente da rela\u00e7\u00e3o sinal-interfer\u00eancia, e n\u00e3o apenas da pot\u00eancia transmitida. Aumentar indiscriminadamente a pot\u00eancia pode elevar simultaneamente o sinal desejado e o n\u00edvel de interfer\u00eancia, degradando o desempenho global da rede.<\/p>\n<p>A interfer\u00eancia de canal adjacente est\u00e1 associada a sinais transmitidos em frequ\u00eancias pr\u00f3ximas \u00e0 do canal desejado, geralmente relacionada a limita\u00e7\u00f5es de filtragem e ao chamado efeito perto-distante, no qual um transmissor pr\u00f3ximo interfere na recep\u00e7\u00e3o de sinais mais fracos. Esse tipo de interfer\u00eancia \u00e9 mitigado por meio de planejamento adequado da aloca\u00e7\u00e3o de canais, separa\u00e7\u00e3o espectral, controle de pot\u00eancia e uso de filtros eficientes.<\/p>\n<p>Apesar dos avan\u00e7os observados nos indicadores de densidade celular e cobertura, o 5G em S\u00e3o Lu\u00eds ainda \u00e9 alvo de reclama\u00e7\u00f5es por parte de usu\u00e1rios, sobretudo relacionadas \u00e0 varia\u00e7\u00e3o de desempenho em determinados locais e hor\u00e1rios. Esse descompasso entre m\u00e9tricas globais e experi\u00eancia individual \u00e9 comum em fases iniciais de implanta\u00e7\u00e3o de novas tecnologias.<\/p>\n<p>Do ponto de vista da engenharia, a qualidade percebida pelo usu\u00e1rio est\u00e1 diretamente condicionada ao SINR, que depende da distribui\u00e7\u00e3o espacial das c\u00e9lulas, do carregamento da rede, da mobilidade, das caracter\u00edsticas construtivas do ambiente urbano e da capacidade dos terminais. Em redes 5G, que operam com c\u00e9lulas menores e maior reutiliza\u00e7\u00e3o espectral, essas vari\u00e1veis tornam-se ainda mais sens\u00edveis.<\/p>\n<p>\u00c9 importante destacar que as comunica\u00e7\u00f5es m\u00f3veis s\u00e3o projetadas com base em modelos semiemp\u00edricos e probabil\u00edsticos. Por essa raz\u00e3o, etapas como drive test e otimiza\u00e7\u00e3o cont\u00ednua s\u00e3o essenciais. Essas atividades permitem medir SINR, pot\u00eancia recebida, interfer\u00eancia e tr\u00e1fego real, fornecendo subs\u00eddios t\u00e9cnicos para ajustes finos da rede.<\/p>\n<p>No caso de S\u00e3o Lu\u00eds, esse desafio \u00e9 ampliado pelo processo cont\u00ednuo de verticaliza\u00e7\u00e3o urbana, que altera o ambiente de propaga\u00e7\u00e3o e pode modificar o comportamento do SINR mesmo em \u00e1reas anteriormente bem atendidas. Isso refor\u00e7a a necessidade permanente de planejamento, densifica\u00e7\u00e3o celular e otimiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por fim, \u00e9 importante destacar que esses desafios fazem parte do pr\u00f3prio processo de engenharia associado \u00e0 implanta\u00e7\u00e3o do 5G. Trata-se de uma tecnologia introduzida com padr\u00f5es t\u00e9cnicos definidos e operacionalmente funcional, por\u00e9m ainda em processo de amadurecimento tecnol\u00f3gico e operacional, com funcionalidades e otimiza\u00e7\u00f5es sendo progressivamente incorporadas. Esse modelo de implanta\u00e7\u00e3o \u00e9 caracter\u00edstico de tecnologias de nova gera\u00e7\u00e3o e explica a necessidade de ajustes cont\u00ednuos de rede, aprimoramentos de planejamento e expans\u00e3o gradual da infraestrutura. Assim, as adapta\u00e7\u00f5es observadas n\u00e3o indicam falhas, mas refletem o processo natural de evolu\u00e7\u00e3o e consolida\u00e7\u00e3o de uma tecnologia em desenvolvimento, \u00e0 medida que ela se adapta \u00e0s condi\u00e7\u00f5es reais de uso, ao crescimento do tr\u00e1fego e \u00e0s particularidades do ambiente urbano.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Autor:<br \/>\nEngenheiro Eletricista Rogerio Moreira Lima Silva<br \/>\nDiretor de Inova\u00e7\u00e3o e Diretor Estadual no Maranh\u00e3o da ABTELECOM, Especialista da ABEE Nacional e 1\u00ba Secret\u00e1rio da ABEE-MA, Embaixador da ABRACOPEL, membro do SENGE-MA e do CEM, Diretor de Rela\u00e7\u00f5es Institucionais da Academia Maranhense de Ci\u00eancias e professor da Universidade Estadual do Maranh\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como densidade de antenas, qualidade do sinal e otimiza\u00e7\u00e3o da rede explicam a experi\u00eancia do usu\u00e1rio S\u00e3o Lu\u00eds j\u00e1 conta com uma infraestrutura 5G numericamente robusta, com centenas de c\u00e9lulas em opera\u00e7\u00e3o e metas regulat\u00f3rias formalmente atendidas. 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