{"id":3014,"date":"2026-08-18T17:03:37","date_gmt":"2026-08-18T20:03:37","guid":{"rendered":"https:\/\/abtelecom.org.br\/site\/?p=3014"},"modified":"2026-08-18T17:05:15","modified_gmt":"2026-08-18T20:05:15","slug":"6-ghz-engenharia-regulacao-e-os-caminhos-para-o-6g-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/abtelecom.org.br\/site\/6-ghz-engenharia-regulacao-e-os-caminhos-para-o-6g-no-brasil\/","title":{"rendered":"6 GHz: engenharia, regula\u00e7\u00e3o e os caminhos para o 6G no Brasil"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-3015\" src=\"https:\/\/abtelecom.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/propagacao-6g-brasil.jpg\" alt=\"Propaga\u00e7\u00e3o 6Gh Brasil\" width=\"1536\" height=\"1024\" srcset=\"https:\/\/abtelecom.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/propagacao-6g-brasil.jpg 1536w, https:\/\/abtelecom.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/propagacao-6g-brasil-300x200.jpg 300w, https:\/\/abtelecom.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/propagacao-6g-brasil-1030x687.jpg 1030w, https:\/\/abtelecom.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/propagacao-6g-brasil-768x512.jpg 768w, https:\/\/abtelecom.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/propagacao-6g-brasil-1500x1000.jpg 1500w, https:\/\/abtelecom.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/propagacao-6g-brasil-705x470.jpg 705w, https:\/\/abtelecom.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/propagacao-6g-brasil-450x300.jpg 450w\" sizes=\"(max-width: 1536px) 100vw, 1536px\" \/><\/p>\n<p>A faixa de 6 GHz vem ganhando import\u00e2ncia nas discuss\u00f5es sobre o futuro das telecomunica\u00e7\u00f5es no Brasil. O processo conduzido pela Ag\u00eancia Nacional de Telecomunica\u00e7\u00f5es (Anatel) para a faixa de <strong>6425 a 7125 MHz (6,425 a 7,125 GHz)<\/strong> envolve n\u00e3o apenas uma quest\u00e3o regulat\u00f3ria, mas tamb\u00e9m importantes aspectos de engenharia de telecomunica\u00e7\u00f5es, especialmente relacionados \u00e0 propaga\u00e7\u00e3o, \u00e0 coexist\u00eancia com outros sistemas e \u00e0 evolu\u00e7\u00e3o das redes m\u00f3veis.<\/p>\n<p>A faixa est\u00e1 inserida na regi\u00e3o de <strong>SHF (Super High Frequency), de 3 a 30 GHz<\/strong>, na qual a propaga\u00e7\u00e3o em visibilidade constitui uma refer\u00eancia importante para o planejamento dos sistemas de radiocomunica\u00e7\u00e3o. No ambiente m\u00f3vel, entretanto, o sinal tamb\u00e9m est\u00e1 sujeito a reflex\u00e3o, espalhamento, difra\u00e7\u00e3o, obstru\u00e7\u00f5es e m\u00faltiplos percursos.<\/p>\n<p><strong>6 GHz para telefonia m\u00f3vel: equil\u00edbrio entre capacidade e propaga\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Quando analisada especificamente para a telefonia m\u00f3vel, a faixa de 6425 a 7125 MHz apresenta uma caracter\u00edstica particularmente interessante para a evolu\u00e7\u00e3o das redes <strong>5G Advanced e 6G<\/strong>: oferece maior largura de banda e capacidade sem apresentar todas as limita\u00e7\u00f5es de propaga\u00e7\u00e3o caracter\u00edsticas das ondas milim\u00e9tricas.<\/p>\n<p><strong>Em 6,4 GHz, o comprimento de onda \u00e9 de aproximadamente 4,7 cm.<\/strong> Por estar inserida na faixa de SHF, a propaga\u00e7\u00e3o em visibilidade (<em>Line of Sight<\/em>, LoS) constitui uma refer\u00eancia importante para o planejamento. Entretanto, em uma rede m\u00f3vel, o sinal n\u00e3o se propaga exclusivamente em visibilidade. Edifica\u00e7\u00f5es, estruturas urbanas, ve\u00edculos, vegeta\u00e7\u00e3o e outros obst\u00e1culos produzem reflex\u00e3o, espalhamento, difra\u00e7\u00e3o e m\u00faltiplos percursos, compondo um canal vari\u00e1vel no espa\u00e7o e no tempo.<\/p>\n<p>Nesse contexto, a difra\u00e7\u00e3o deve ser entendida como um dos mecanismos que contribuem para o comportamento do canal, e n\u00e3o como substituta da propaga\u00e7\u00e3o em visibilidade. Sua contribui\u00e7\u00e3o relativa tende a ser maior em 6 GHz do que em ondas milim\u00e9tricas, em raz\u00e3o do maior comprimento de onda. \u00c0 medida que a frequ\u00eancia aumenta, o comprimento de onda diminui e determinados obst\u00e1culos passam a representar dimens\u00f5es el\u00e9tricas maiores para a onda, podendo produzir bloqueios mais severos e reduzir a contribui\u00e7\u00e3o relativa da difra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em compara\u00e7\u00e3o com bandas milim\u00e9tricas, como 26, 28 ou 39 GHz, a frequ\u00eancia de 6 GHz apresenta menor perda de percurso no espa\u00e7o livre para uma mesma dist\u00e2ncia e, de forma geral, condi\u00e7\u00f5es de propaga\u00e7\u00e3o mais favor\u00e1veis em ambientes com obstru\u00e7\u00f5es. Isso n\u00e3o significa que a cobertura seja equivalente \u00e0 de bandas mais baixas, como 700 MHz ou 3,5 GHz. A faixa de 6 GHz ocupa, portanto, uma posi\u00e7\u00e3o intermedi\u00e1ria entre <strong>cobertura e capacidade<\/strong>.<\/p>\n<p>Outro aspecto favor\u00e1vel est\u00e1 relacionado \u00e0 chuva. Na faixa de 6425 a 7125 MHz, a atenua\u00e7\u00e3o espec\u00edfica provocada pela precipita\u00e7\u00e3o \u00e9 relativamente pequena quando comparada \u00e0s frequ\u00eancias muito mais elevadas. Assim, a chuva tende a exercer influ\u00eancia muito menor sobre o enlace de acesso m\u00f3vel em 6 GHz.<\/p>\n<p>Essa caracter\u00edstica merece aten\u00e7\u00e3o especial no Brasil, particularmente na <strong>Regi\u00e3o Norte e no Maranh\u00e3o<\/strong>, onde podem ocorrer eventos de precipita\u00e7\u00e3o muito intensa, com taxas que, em determinadas localidades e condi\u00e7\u00f5es meteorol\u00f3gicas, podem superar <strong>100 mm\/h<\/strong>. Esses valores devem ser interpretados segundo as estat\u00edsticas locais de precipita\u00e7\u00e3o e o per\u00edodo de refer\u00eancia utilizado nos modelos de propaga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Entretanto, para a telefonia m\u00f3vel em 6 GHz, uma elevada taxa de precipita\u00e7\u00e3o n\u00e3o significa, por si s\u00f3, que a chuva ser\u00e1 o principal mecanismo de degrada\u00e7\u00e3o do enlace. A atenua\u00e7\u00e3o provocada pela chuva depende da frequ\u00eancia, da intensidade da precipita\u00e7\u00e3o e, principalmente, do comprimento do percurso efetivamente submetido \u00e0 chuva. Em enlaces de acesso m\u00f3vel, normalmente de menor extens\u00e3o, esse efeito tende a ser significativamente menos relevante do que em enlaces terrestres de longa dist\u00e2ncia operando em frequ\u00eancias mais elevadas.<\/p>\n<p>Assim, mesmo em regi\u00f5es sujeitas a precipita\u00e7\u00f5es intensas, a faixa de 6 GHz apresenta uma caracter\u00edstica favor\u00e1vel: <strong>a atenua\u00e7\u00e3o por chuva \u00e9 relativamente baixa quando comparada \u00e0s frequ\u00eancias superiores<\/strong>, tornando esse mecanismo menos cr\u00edtico no planejamento do enlace de acesso m\u00f3vel. Nesse cen\u00e1rio, fatores como perda de percurso, obstru\u00e7\u00e3o, multipercurso, reflex\u00e3o, difra\u00e7\u00e3o, espalhamento, vegeta\u00e7\u00e3o e interfer\u00eancia tendem a assumir maior import\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Essa combina\u00e7\u00e3o faz da faixa de 6 GHz uma alternativa particularmente interessante para ampliar a capacidade das redes m\u00f3veis sem enfrentar, na mesma intensidade, os desafios de propaga\u00e7\u00e3o encontrados nas ondas milim\u00e9tricas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Propaga\u00e7\u00e3o urbana e o modelo \u03b1-\u03b2-\u03b3<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 nesse contexto que ganha import\u00e2ncia a <strong>Recommendation ITU-R P.1411-13<\/strong>, aprovada em setembro de 2025. A recomenda\u00e7\u00e3o trata de dados de propaga\u00e7\u00e3o e m\u00e9todos de previs\u00e3o para sistemas de radiocomunica\u00e7\u00e3o outdoor de curto alcance e redes locais de r\u00e1dio, abrangendo a faixa de 300 MHz a 300 GHz.<\/p>\n<p>Entre os cen\u00e1rios contemplados est\u00e1 o <strong>modelo <em>site-general<\/em> para propaga\u00e7\u00e3o dentro de <em>street canyons<\/em><\/strong>, aplic\u00e1vel quando as esta\u00e7\u00f5es transmissora e receptora est\u00e3o localizadas abaixo do n\u00edvel dos telhados.<\/p>\n<p>\u00c9 importante destacar que o <strong>modelo \u03b1-\u03b2-\u03b3 n\u00e3o deve ser tratado como uma solu\u00e7\u00e3o gen\u00e9rica para qualquer enlace em 6 GHz<\/strong>. Sua aplica\u00e7\u00e3o \u00e9 particularmente pertinente ao cen\u00e1rio de propaga\u00e7\u00e3o em <em>street canyon<\/em>, quando transmissor e receptor est\u00e3o abaixo do n\u00edvel dos telhados, condi\u00e7\u00e3o em que a geometria das ruas e das edifica\u00e7\u00f5es, juntamente com reflex\u00f5es, difra\u00e7\u00f5es, obstru\u00e7\u00f5es e m\u00faltiplos percursos, exerce forte influ\u00eancia sobre a propaga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A formula\u00e7\u00e3o permite estimar estatisticamente a <strong>perda de percurso em fun\u00e7\u00e3o da dist\u00e2ncia e da frequ\u00eancia<\/strong>. De forma simplificada, <strong>\u03b1<\/strong> est\u00e1 associado ao crescimento da perda com a dist\u00e2ncia, <strong>\u03b2<\/strong> representa o termo de ajuste do modelo e <strong>\u03b3<\/strong> representa a depend\u00eancia da perda em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 frequ\u00eancia.<\/p>\n<p>Portanto, n\u00e3o se trata de afirmar que o \u03b1-\u03b2-\u03b3 seja \u201co modelo de propaga\u00e7\u00e3o do 6 GHz\u201d. Trata-se de uma formula\u00e7\u00e3o aplic\u00e1vel a <strong>determinado cen\u00e1rio urbano<\/strong>, particularmente o <em>street canyon<\/em> com as esta\u00e7\u00f5es abaixo do n\u00edvel dos telhados, conforme as condi\u00e7\u00f5es estabelecidas pela ITU-R P.1411-13.<\/p>\n<p>Para futuras redes 6G, esse tipo de modelagem pode contribuir para estudos de cobertura e planejamento em ambientes urbanos, especialmente quando a geometria das ruas e edifica\u00e7\u00f5es exerce influ\u00eancia significativa sobre o canal.<\/p>\n<p><strong>OFDM, multipercurso e o 5G NR<\/strong><\/p>\n<p>Outro aspecto fundamental \u00e9 a forma de onda utilizada nas redes m\u00f3veis.<\/p>\n<p>O <strong>OFDM (Orthogonal Frequency Division Multiplexing)<\/strong> apresenta elevada efici\u00eancia espectral e \u00e9 particularmente adequado a ambientes sujeitos a multipercursos. Ao distribuir a informa\u00e7\u00e3o por diversas subportadoras ortogonais, permite lidar melhor com as diferentes trajet\u00f3rias percorridas pelo sinal.<\/p>\n<p>Em ambientes urbanos, onde reflex\u00f5es e m\u00faltiplos percursos podem provocar dispers\u00e3o temporal, o <strong>prefixo c\u00edclico (Cyclic Prefix, CP)<\/strong> funciona como intervalo de guarda, reduzindo a interfer\u00eancia intersimb\u00f3lica e permitindo preservar a ortogonalidade entre as subportadoras.<\/p>\n<p>Existe, por\u00e9m, um compromisso de engenharia: quanto maior o intervalo de guarda, maior a prote\u00e7\u00e3o contra o multipercurso, mas tamb\u00e9m maior o <em>overhead<\/em> da transmiss\u00e3o.<\/p>\n<p>Diferentemente do LTE, em que o uplink utilizava SC-FDMA, o 5G NR passou a permitir o uso de CP-OFDM tamb\u00e9m no uplink. No PUSCH, o 3GPP prev\u00ea, adicionalmente, a possibilidade de habilitar o transform precoding, que resulta na forma de onda DFT-s-OFDM. Assim, o uplink do 5G NR n\u00e3o deve ser caracterizado exclusivamente como DFT-s-OFDM: o CP-OFDM \u00e9 suportado, enquanto o DFT-s-OFDM \u00e9 obtido quando o transform precoding \u00e9 habilitado.<\/p>\n<p>A ideia \u00e9 simples: antes do processamento OFDM, os s\u00edmbolos passam por uma <strong>Transformada Discreta de Fourier (DFT)<\/strong>. Esse processamento produz uma forma de onda com caracter\u00edsticas semelhantes \u00e0s de uma transmiss\u00e3o de portadora \u00fanica e contribui para reduzir o <strong>PAPR (Peak-to-Average Power Ratio)<\/strong>. Isso \u00e9 particularmente importante no terminal m\u00f3vel, pois um PAPR menor pode favorecer a efici\u00eancia do amplificador de pot\u00eancia.<\/p>\n<p>O 5G NR tamb\u00e9m n\u00e3o resolveu os compromissos do OFDM simplesmente abandonando a forma de onda. A solu\u00e7\u00e3o adotada foi tornar seus par\u00e2metros <strong>escal\u00e1veis<\/strong>.<\/p>\n<p>O NR utiliza uma <strong>numerologia escal\u00e1vel<\/strong>, permitindo diferentes espa\u00e7amentos entre subportadoras. Com o aumento do espa\u00e7amento entre subportadoras, a dura\u00e7\u00e3o do s\u00edmbolo OFDM diminui, permitindo adequar o intervalo de guarda e o prefixo c\u00edclico ao atraso de multipercurso esperado em determinado cen\u00e1rio.<\/p>\n<p>Dessa forma, evita-se utilizar um intervalo de guarda maior do que o necess\u00e1rio, reduzindo seu impacto sobre a efici\u00eancia temporal da transmiss\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Portanto, a solu\u00e7\u00e3o adotada pelo 5G n\u00e3o foi abandonar o OFDM para eliminar o prefixo c\u00edclico, mas tornar sua configura\u00e7\u00e3o mais flex\u00edvel por meio da numerologia escal\u00e1vel e, no uplink, permitir tamb\u00e9m o uso de <em>transform precoding<\/em> para DFT-s-OFDM.<\/strong><\/p>\n<p>Essa \u00e9 uma importante li\u00e7\u00e3o de engenharia do 5G: uma limita\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica nem sempre exige a substitui\u00e7\u00e3o completa da tecnologia. Muitas vezes, a solu\u00e7\u00e3o est\u00e1 na <strong>otimiza\u00e7\u00e3o da forma de onda e de seus par\u00e2metros de transmiss\u00e3o<\/strong>.<\/p>\n<p><strong>Novas formas de onda e o caminho para o 6G<\/strong><\/p>\n<p>Durante o desenvolvimento do 5G foram estudadas diversas alternativas ao OFDM, entre elas <strong>FBMC (Filter Bank Multicarrier), UFMC (Universal Filtered Multicarrier), F-OFDM (Filtered-OFDM) e GFDM (Generalized Frequency Division Multiplexing)<\/strong>.<\/p>\n<p>O FBMC buscou maior confinamento espectral por meio de bancos de filtros; o UFMC aplicou filtragem por sub-bandas; o F-OFDM introduziu filtragem flex\u00edvel em diferentes partes do espectro; e o GFDM buscou maior flexibilidade na estrutura de transmiss\u00e3o.<\/p>\n<p>Mais recentemente, propostas como o <strong>OTFS (Orthogonal Time Frequency Space)<\/strong> passaram a receber aten\u00e7\u00e3o em cen\u00e1rios nos quais mobilidade, efeito Doppler e dispers\u00e3o no canal assumem maior import\u00e2ncia.<\/p>\n<p>O resultado da padroniza\u00e7\u00e3o do 5G, entretanto, foi pragm\u00e1tico: <strong>o OFDM permaneceu<\/strong>.<\/p>\n<p>O 5G NR utiliza CP-OFDM no downlink e tamb\u00e9m suporta CP-OFDM no uplink. No PUSCH, o transform precoding pode ser habilitado, resultando na forma de onda DFT-s-OFDM<\/p>\n<p>Isso demonstra que nenhuma das alternativas estudadas apresentou vantagens suficientes, em conjunto, para substituir o OFDM como base da interface a\u00e9rea 5G NR.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 apenas efici\u00eancia espectral. Uma nova forma de onda precisa apresentar vantagens consistentes em conjunto com <strong>MIMO, sincroniza\u00e7\u00e3o, estima\u00e7\u00e3o de canal, equaliza\u00e7\u00e3o, mobilidade, complexidade computacional, efici\u00eancia energ\u00e9tica, interoperabilidade e viabilidade comercial<\/strong>.<\/p>\n<p>Para o 6G, esse processo de avalia\u00e7\u00e3o dever\u00e1 continuar. Na faixa de 6 GHz, a escolha da forma de onda dever\u00e1 considerar conjuntamente multipercurso, dispers\u00e3o temporal, Doppler, prefixo c\u00edclico, <em>overhead<\/em>, PAPR, MIMO, beamforming, efici\u00eancia espectral e lat\u00eancia.<\/p>\n<p><strong>A faixa de 6 GHz e o processo da Anatel<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 nesse contexto t\u00e9cnico que deve ser analisado o <strong>Processo SEI n\u00ba 53500.012864\/2025-66<\/strong>, da Anatel.<\/p>\n<p>O processo corresponde ao <strong>item 29 da Agenda Regulat\u00f3ria 2025-2026<\/strong> e trata da elabora\u00e7\u00e3o de edital de licita\u00e7\u00e3o para autoriza\u00e7\u00e3o de uso de radiofrequ\u00eancias na faixa de <strong>6425-7125 MHz<\/strong>, associadas \u00e0 presta\u00e7\u00e3o do Servi\u00e7o M\u00f3vel Pessoal (SMP). A pr\u00f3pria Anatel identifica expressamente esse processo e seu objeto.<\/p>\n<p>O Termo de Abertura de Projeto identifica como \u00e1reas respons\u00e1veis a Superintend\u00eancia de Planejamento e Regulamenta\u00e7\u00e3o (SPR), a Superintend\u00eancia de Outorga e Recursos \u00e0 Presta\u00e7\u00e3o (SOR) e a Superintend\u00eancia de Competi\u00e7\u00e3o (SCP).<\/p>\n<p>Nesse contexto, merece destaque <strong>Vinicius Caram<\/strong>, engenheiro eletricista e mestre em Engenharia de Telecomunica\u00e7\u00f5es, atualmente Superintendente de Outorga e Recursos \u00e0 Presta\u00e7\u00e3o da Anatel. Sua participa\u00e7\u00e3o refor\u00e7a a import\u00e2ncia da expertise t\u00e9cnica na condu\u00e7\u00e3o do projeto.<\/p>\n<p>A utiliza\u00e7\u00e3o da faixa precisa considerar propaga\u00e7\u00e3o, cobertura, pot\u00eancia, caracter\u00edsticas das antenas, ocupa\u00e7\u00e3o espectral, interfer\u00eancia e condi\u00e7\u00f5es de coexist\u00eancia com outros sistemas, incluindo o Wi-Fi.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata simplesmente de escolher entre tecnologias. Trata-se de encontrar uma solu\u00e7\u00e3o tecnicamente equilibrada para a utiliza\u00e7\u00e3o eficiente de um recurso p\u00fablico e estrat\u00e9gico: o espectro de radiofrequ\u00eancias.<\/p>\n<p><strong>O debate sobre o 6 GHz e o 6G<\/strong><\/p>\n<p>Essa discuss\u00e3o n\u00e3o come\u00e7ou em 2026. Em <strong>26 de setembro de 2024<\/strong>, durante o INOVAtic, Vinicius Caram j\u00e1 defendia publicamente a import\u00e2ncia da faixa de 6 GHz para o futuro do 6G no Brasil.<\/p>\n<p>Na ocasi\u00e3o, Caram afirmou que o Brasil n\u00e3o teria outra faixa abaixo de 6 GHz com uma portadora de 200 MHz e defendeu a utiliza\u00e7\u00e3o da faixa para permitir a futura implanta\u00e7\u00e3o do 6G, al\u00e9m de discutir a possibilidade de compartilhamento entre telefonia m\u00f3vel e Wi-Fi.<\/p>\n<p>A manifesta\u00e7\u00e3o \u00e9 relevante porque demonstra que a discuss\u00e3o sobre os 6 GHz n\u00e3o surgiu apenas com o atual processo regulat\u00f3rio. Ela vem sendo constru\u00edda h\u00e1 alguns anos e envolve uma quest\u00e3o estrat\u00e9gica: <strong>como disponibilizar espectro suficiente para que o Brasil acompanhe a evolu\u00e7\u00e3o das redes m\u00f3veis e, ao mesmo tempo, preserve a conectividade proporcionada pelas redes Wi-Fi<\/strong>.<\/p>\n<p><strong>O semin\u00e1rio do Ceadi<\/strong><\/p>\n<p>Essa discuss\u00e3o ganhou novo destaque em <strong>28 de julho de 2026<\/strong>, durante semin\u00e1rio promovido pelo Centro de Altos Estudos em Comunica\u00e7\u00f5es Digitais e Inova\u00e7\u00f5es Tecnol\u00f3gicas (Ceadi) da Anatel.<\/p>\n<p>Segundo reportagem do TeleS\u00edntese, o presidente da Anatel, Carlos Manuel Baigorri, e o conselheiro Alexandre Freire destacaram que a defini\u00e7\u00e3o sobre o futuro da faixa de 6 GHz dever\u00e1 considerar <strong>evid\u00eancias, estudos t\u00e9cnicos, testes e a participa\u00e7\u00e3o dos diferentes setores envolvidos<\/strong>.<\/p>\n<p>Durante o evento, <strong>Vinicius Caram defendeu que a faixa de 6 GHz se tornou estrat\u00e9gica para o desenvolvimento do 5G Advanced e das futuras redes m\u00f3veis de sexta gera\u00e7\u00e3o no Brasil<\/strong>, destacando que o debate deve considerar as necessidades futuras da infraestrutura digital brasileira e n\u00e3o apenas a disputa entre Wi-Fi e redes m\u00f3veis.<\/p>\n<p>Essa abordagem refor\u00e7a uma premissa importante: a decis\u00e3o regulat\u00f3ria deve ser baseada em evid\u00eancias e n\u00e3o apenas em argumentos econ\u00f4micos ou tecnol\u00f3gicos isolados.<\/p>\n<p>Estudos de propaga\u00e7\u00e3o, interfer\u00eancia, cobertura, testes de campo, caracter\u00edsticas de antenas e coexist\u00eancia podem fornecer subs\u00eddios importantes para uma decis\u00e3o tecnicamente fundamentada.<\/p>\n<p><strong>O movimento de 10 de agosto de 2026<\/strong><\/p>\n<p>O \u00faltimo movimento registrado no processo \u00e9 o <strong>Of\u00edcio n\u00ba 2\/2026\/CEO-ANATEL, de 10 de agosto de 2026<\/strong>, assinado pelo presidente da Anatel, Carlos Manuel Baigorri, e encaminhado ao Conselheiro Alexandre Freire.<\/p>\n<p>O documento encaminhou o Informe n\u00ba 17\/2026\/CPOE\/SCP e o Informe n\u00ba 24\/2026\/SOR e apresentou manifesta\u00e7\u00e3o sobre a necessidade de estudos complementares.<\/p>\n<p>A Presid\u00eancia da Anatel registrou que <strong>\u201cn\u00e3o se considera conveniente nem oportuna a realiza\u00e7\u00e3o de estudo complementar\u201d<\/strong>, nos termos do item 5.4 do Of\u00edcio n\u00ba 222\/2026\/AF-ANATEL.<\/p>\n<p>O documento justifica esse entendimento afirmando que os elementos pertinentes \u00e0 mat\u00e9ria j\u00e1 teriam sido analisados pela \u00e1rea t\u00e9cnica e pelo Conselho Diretor quando da decis\u00e3o acerca da destina\u00e7\u00e3o da faixa, conforme consignado na An\u00e1lise n\u00ba 11\/2024\/VC.<\/p>\n<p>\u00c9 importante, entretanto, separar <strong>destina\u00e7\u00e3o da faixa, futura licita\u00e7\u00e3o e defini\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de autoriza\u00e7\u00e3o de uso<\/strong>.<\/p>\n<p>O processo n\u00e3o significa que o edital definitivo ou a licita\u00e7\u00e3o j\u00e1 estejam aprovados. A utiliza\u00e7\u00e3o da faixa pelo SMP ainda depende das etapas regulat\u00f3rias correspondentes.<\/p>\n<p><strong>Engenharia como fundamento da decis\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>A discuss\u00e3o sobre os 6425 a 7125 MHz envolve uma oportunidade de ampliar a capacidade das redes m\u00f3veis e avaliar sua contribui\u00e7\u00e3o para futuras gera\u00e7\u00f5es de conectividade, inclusive o 6G.<\/p>\n<p>Mas essa oportunidade precisa ser acompanhada de engenharia.<\/p>\n<p>No Norte e no Maranh\u00e3o, as condi\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas devem ser consideradas nos estudos de propaga\u00e7\u00e3o, especialmente em localidades sujeitas a eventos de precipita\u00e7\u00e3o muito intensa. Em determinadas localidades e condi\u00e7\u00f5es meteorol\u00f3gicas, as taxas de precipita\u00e7\u00e3o podem superar 100 mm\/h. Esses valores devem ser interpretados segundo as estat\u00edsticas locais de precipita\u00e7\u00e3o e o per\u00edodo de refer\u00eancia utilizado nos modelos de propaga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Entretanto, para a telefonia m\u00f3vel em 6 GHz, uma elevada taxa de precipita\u00e7\u00e3o n\u00e3o significa, por si s\u00f3, que a chuva ser\u00e1 o principal mecanismo de degrada\u00e7\u00e3o do enlace. A atenua\u00e7\u00e3o provocada pela chuva depende da frequ\u00eancia, da intensidade da precipita\u00e7\u00e3o e, principalmente, do comprimento do percurso efetivamente submetido \u00e0 chuva. Em enlaces de acesso m\u00f3vel, normalmente de menor extens\u00e3o, esse efeito tende a ser significativamente menos relevante do que em enlaces terrestres de longa dist\u00e2ncia operando em frequ\u00eancias mais elevadas.<\/p>\n<p>Assim, mesmo em regi\u00f5es sujeitas a precipita\u00e7\u00f5es intensas, a faixa de 6 GHz apresenta uma caracter\u00edstica favor\u00e1vel: a atenua\u00e7\u00e3o por chuva \u00e9 relativamente baixa quando comparada \u00e0s frequ\u00eancias superiores, tornando esse mecanismo menos cr\u00edtico no planejamento do enlace de acesso m\u00f3vel. Nesse cen\u00e1rio, fatores como perda de percurso, obstru\u00e7\u00e3o, multipercurso, reflex\u00e3o, difra\u00e7\u00e3o, espalhamento, vegeta\u00e7\u00e3o e interfer\u00eancia tendem a assumir maior import\u00e2ncia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nos ambientes urbanos, a engenharia dever\u00e1 considerar perda de percurso, multipercurso, reflex\u00e3o, difra\u00e7\u00e3o, espalhamento, obstru\u00e7\u00e3o, penetra\u00e7\u00e3o em edifica\u00e7\u00f5es, MIMO, beamforming e interfer\u00eancia.<\/p>\n<p>A experi\u00eancia do 5G demonstra tamb\u00e9m que inova\u00e7\u00e3o n\u00e3o significa necessariamente abandonar tecnologias consolidadas. O OFDM permaneceu como base do 5G NR porque apresentou um equil\u00edbrio adequado entre desempenho, complexidade, compatibilidade e maturidade tecnol\u00f3gica, enquanto mecanismos como <strong>numerologia escal\u00e1vel e <em>transform precoding<\/em><\/strong> permitiram adaptar seu uso \u00e0s diferentes condi\u00e7\u00f5es de transmiss\u00e3o.<\/p>\n<p>Para o 6G, esse processo dever\u00e1 continuar.<\/p>\n<p>A faixa de 6 GHz re\u00fane caracter\u00edsticas particularmente interessantes: <strong>maior capacidade espectral, comprimento de onda de aproximadamente 4,7 cm em 6,4 GHz, condi\u00e7\u00f5es de propaga\u00e7\u00e3o mais favor\u00e1veis que as ondas milim\u00e9tricas e menor sensibilidade \u00e0 atenua\u00e7\u00e3o por chuva quando comparada \u00e0s bandas superiores<\/strong>.<\/p>\n<p>Para o Brasil, essa combina\u00e7\u00e3o pode ser estrat\u00e9gica.<\/p>\n<p>A regula\u00e7\u00e3o, entretanto, precisa refletir a realidade operacional e t\u00e9cnica dos sistemas que pretende disciplinar. Estudos de engenharia devem fornecer os elementos necess\u00e1rios para avaliar se determinada solu\u00e7\u00e3o \u00e9 efetivamente vi\u00e1vel, segura, eficiente e sustent\u00e1vel.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse equil\u00edbrio entre <strong>engenharia, regula\u00e7\u00e3o, inova\u00e7\u00e3o, competitividade e interesse p\u00fablico<\/strong> que estar\u00e1 a melhor solu\u00e7\u00e3o para o Brasil.<\/p>\n<p><strong>N\u00e3o basta ter espectro. \u00c9 preciso saber utiliz\u00e1-lo.<\/strong><\/p>\n<p><strong>E, para isso, a engenharia precisa ser ouvida.<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Rogerio Moreira Lima \u00e9 engenheiro eletricista e doutor em Telecomunica\u00e7\u00f5es, diretor de Inova\u00e7\u00e3o e diretor estadual da ABTELECOM no Maranh\u00e3o. Tamb\u00e9m \u00e9 diretor de Rela\u00e7\u00f5es Institucionais da Academia Maranhense de Ci\u00eancias, especialista da ABEE e 1\u00ba Secret\u00e1rio da ABEE-MA, embaixador da ABRACOPEL e do Instituto EWRAN e professor da UEMA.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<ol>\n<li><strong>ITU-R P.1411-13 (09\/2025).<\/strong> <em>Propagation data and prediction methods for the planning of short-range outdoor radiocommunication systems and radio local area networks in the frequency range 300 MHz to 300 GHz.<\/em><\/li>\n<li>3GPP TS 38.211 V19.3.0, Release 19 (2026-04). NR; Physical channels and modulation, especialmente a Se\u00e7\u00e3o 6.3.1, Physical uplink shared channel (PUSCH), e a subse\u00e7\u00e3o relativa a transform precoding.<\/li>\n<li><strong>ITU-R P.530.<\/strong> <em>Propagation data and prediction methods required for the design of terrestrial line-of-sight systems.<\/em><\/li>\n<li><strong>ITU-R P.837.<\/strong> <em>Characteristics of precipitation for propagation modelling.<\/em><\/li>\n<li><strong>ITU-R P.838.<\/strong> <em>Specific attenuation model for rain for use in prediction methods.<\/em><\/li>\n<li><strong>Anatel. Agenda Regulat\u00f3ria 2025-2026, item 29.<\/strong> Elabora\u00e7\u00e3o de Edital de Licita\u00e7\u00e3o para autoriza\u00e7\u00e3o de uso de radiofrequ\u00eancias na faixa de 6425-7125 MHz. <strong>Processo SEI n\u00ba 53500.012864\/2025-66.<\/strong><\/li>\n<li><strong>TeleS\u00edntese.<\/strong> <em>\u201cBrasil n\u00e3o tem outro espectro para o 6G a n\u00e3o ser os 6 GHz\u201d, diz Caram.<\/em> Eduardo Vasconcelos, 26 de setembro de 2024. A mat\u00e9ria registra a posi\u00e7\u00e3o de Vinicius Caram sobre a import\u00e2ncia da faixa de 6 GHz para a futura implanta\u00e7\u00e3o do 6G no Brasil e o debate sobre o compartilhamento entre telefonia m\u00f3vel e Wi-Fi.<\/li>\n<li><strong>TeleS\u00edntese.<\/strong> <em>Anatel refor\u00e7a que decis\u00e3o sobre a faixa de 6 GHz ser\u00e1 baseada em evid\u00eancias e debate t\u00e9cnico.<\/em> Paula Coutinho, 28 de julho de 2026. A reportagem registra as manifesta\u00e7\u00f5es de Carlos Baigorri, Alexandre Freire e Vinicius Caram durante o semin\u00e1rio do Ceadi.<\/li>\n<li>ANATEL. Of\u00edcio n\u00ba 2\/2026\/CEO-ANATEL, de 10 de agosto de 2026. Resposta ao Of\u00edcio n\u00ba 222\/2026\/AF-ANATEL. Processo SEI n\u00ba 53500.012864\/2025-66.<\/li>\n<\/ol>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A faixa de 6 GHz vem ganhando import\u00e2ncia nas discuss\u00f5es sobre o futuro das telecomunica\u00e7\u00f5es no Brasil. 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