5G em São Luís: infraestrutura avançada, desafios reais

Como densidade de antenas, qualidade do sinal e otimização da rede explicam a experiência do usuário

São Luís já conta com uma infraestrutura 5G numericamente robusta, com centenas de células em operação e metas regulatórias formalmente atendidas. Ainda assim, reclamações sobre variações de desempenho fazem parte do cotidiano de muitos usuários. Essa aparente contradição ajuda a entender por que o 5G, apesar de tecnologicamente avançado, não pode ser avaliado apenas pelo número de antenas ou pela existência de cobertura nominal. A experiência real do usuário depende de uma combinação de fatores, entre eles a densidade celular, a qualidade efetiva do sinal e o processo contínuo de otimização das redes.

A densidade de antenas 5G é um dos principais indicadores do estágio de implantação da nova geração de redes móveis. Mais do que sinalizar a simples presença da tecnologia, esse parâmetro revela a densidade de células ativas, elemento fundamental para garantir capacidade, estabilidade e qualidade de serviço. No Maranhão, e especialmente em São Luís, essa análise ganha relevância quando observada à luz dos compromissos assumidos pelas operadoras no leilão de radiofrequências conduzido pela Agência Nacional de Telecomunicações, que estabeleceu metas mínimas de cobertura proporcionais ao tamanho da população dos municípios.

Dados do Painel Mapa das Antenas, disponível no sítio eletrônico da Conexis Brasil Digital, indicam que São Luís possui atualmente 477 células 5G em operação, distribuídas em estações rádio base. Desse total, a Vivo opera 161 células, a Claro 156, a TIM 154, enquanto a Brisanet mantém 6 células 5G na capital. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, a população estimada de São Luís em 2025 era de 1.089.215 habitantes, dado essencial para avaliar o atendimento às metas regulatórias.

Pelas regras do leilão, até 31 de julho de 2026, municípios com população superior a 200 mil habitantes devem contar, para cada prestadora, com pelo menos uma célula 5G a cada 15 mil habitantes. No caso de São Luís, isso corresponde a um mínimo de 73 células 5G por operadora. A comparação com a infraestrutura atualmente instalada indica que Vivo, Claro e TIM superam com ampla margem esse patamar mínimo, operando com densidade de células superior ao dobro do exigido. A Brisanet, por sua vez, apresenta uma implantação inicial, compatível com seu perfil de operadora regional.

Os dados de cobertura divulgados pela ANATEL reforçam essa leitura. Em São Luís, 98,24% da população encontra-se em área de cobertura móvel, percentual que alcança 98,71% da população urbana. Nas áreas classificadas como rurais, a cobertura atinge 36,68%, refletindo tanto características geográficas quanto a lógica técnica de implantação das redes, que priorizam regiões com maior concentração populacional e maior demanda por tráfego de dados.

É importante registrar que, a partir de setembro de 2024, houve um ajuste metodológico relevante na forma de estimar a cobertura das tecnologias 4G e 5G, com a revisão dos limiares mínimos de potência recebida de −110 dBm para −90 dBm. Essa mudança reduziu as áreas classificadas como cobertas, mas elevou substancialmente o patamar mínimo de qualidade do sinal adotado nas predições, tornando os mapas de cobertura mais aderentes à experiência real do usuário. Trata-se de um aprimoramento inserido em um arcabouço regulatório voltado à avaliação conjunta da cobertura e da qualidade das redes de comunicações móveis, alinhado às melhores práticas internacionais.

Para o leitor não familiarizado com termos técnicos, vale esclarecer que o dBm expressa a potência do sinal recebido pelo aparelho. Quanto mais negativo o valor, mais fraco é o sinal. Um critério de −110 dBm admite sinais muito fracos, normalmente associados a baixa relação sinal-interferência e ruído, enquanto o critério de −90 dBm exige sinais mais fortes, compatíveis com valores mais elevados de SINR, condição essencial para maiores velocidades e menor taxa de erros.

Na prática, a adoção de limiares mais elevados reduz o raio efetivo de cobertura de cada célula. Isso resulta em menor área atendida por célula e exige, portanto, maior densificação da rede. Como consequência, essa densificação pode levar a uma elevação da interferência co-canal, a qual precisa ser controlada por meio de planejamento criterioso e de processos contínuos de otimização.

Outro aspecto técnico relevante diz respeito ao uso da faixa de 3,5 GHz, principal frequência do 5G no Brasil. Embora essa faixa permita maior capacidade e velocidades mais elevadas, apresenta características de propagação diferentes das frequências mais baixas utilizadas no 4G. Em termos práticos, sinais em 3,5 GHz sofrem maior atenuação, têm menor alcance e são mais sensíveis a obstáculos físicos, como paredes, edificações e vegetação. Como consequência, a cobertura de cada célula tende a ser menor, podendo surgir áreas de sombra em locais onde, com frequências mais baixas, anteriormente havia cobertura satisfatória. Esse efeito não representa uma regressão tecnológica, mas sim uma característica física da propagação em frequências mais altas, reforçando a necessidade de maior densificação da rede, planejamento cuidadoso e otimização contínua.

Para compreender por que o simples aumento de potência não resolve problemas de cobertura, é fundamental considerar que as redes de telefonia celular estão sujeitas a interferências inerentes ao próprio sistema. A interferência co-canal decorre da natureza autointerferente dos sistemas celulares, cuja arquitetura se baseia no reuso de frequências. Nessas condições, a qualidade da comunicação passa a depender fundamentalmente da relação sinal-interferência, e não apenas da potência transmitida. Aumentar indiscriminadamente a potência pode elevar simultaneamente o sinal desejado e o nível de interferência, degradando o desempenho global da rede.

A interferência de canal adjacente está associada a sinais transmitidos em frequências próximas à do canal desejado, geralmente relacionada a limitações de filtragem e ao chamado efeito perto-distante, no qual um transmissor próximo interfere na recepção de sinais mais fracos. Esse tipo de interferência é mitigado por meio de planejamento adequado da alocação de canais, separação espectral, controle de potência e uso de filtros eficientes.

Apesar dos avanços observados nos indicadores de densidade celular e cobertura, o 5G em São Luís ainda é alvo de reclamações por parte de usuários, sobretudo relacionadas à variação de desempenho em determinados locais e horários. Esse descompasso entre métricas globais e experiência individual é comum em fases iniciais de implantação de novas tecnologias.

Do ponto de vista da engenharia, a qualidade percebida pelo usuário está diretamente condicionada ao SINR, que depende da distribuição espacial das células, do carregamento da rede, da mobilidade, das características construtivas do ambiente urbano e da capacidade dos terminais. Em redes 5G, que operam com células menores e maior reutilização espectral, essas variáveis tornam-se ainda mais sensíveis.

É importante destacar que as comunicações móveis são projetadas com base em modelos semiempíricos e probabilísticos. Por essa razão, etapas como drive test e otimização contínua são essenciais. Essas atividades permitem medir SINR, potência recebida, interferência e tráfego real, fornecendo subsídios técnicos para ajustes finos da rede.

No caso de São Luís, esse desafio é ampliado pelo processo contínuo de verticalização urbana, que altera o ambiente de propagação e pode modificar o comportamento do SINR mesmo em áreas anteriormente bem atendidas. Isso reforça a necessidade permanente de planejamento, densificação celular e otimização.

Por fim, é importante destacar que esses desafios fazem parte do próprio processo de engenharia associado à implantação do 5G. Trata-se de uma tecnologia introduzida com padrões técnicos definidos e operacionalmente funcional, porém ainda em processo de amadurecimento tecnológico e operacional, com funcionalidades e otimizações sendo progressivamente incorporadas. Esse modelo de implantação é característico de tecnologias de nova geração e explica a necessidade de ajustes contínuos de rede, aprimoramentos de planejamento e expansão gradual da infraestrutura. Assim, as adaptações observadas não indicam falhas, mas refletem o processo natural de evolução e consolidação de uma tecnologia em desenvolvimento, à medida que ela se adapta às condições reais de uso, ao crescimento do tráfego e às particularidades do ambiente urbano.

 

 

Autor:
Engenheiro Eletricista Rogerio Moreira Lima Silva
Diretor de Inovação e Diretor Estadual no Maranhão da ABTELECOM, Especialista da ABEE Nacional e 1º Secretário da ABEE-MA, Embaixador da ABRACOPEL, membro do SENGE-MA e do CEM, Diretor de Relações Institucionais da Academia Maranhense de Ciências e professor da Universidade Estadual do Maranhão.

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