17 de Maio: O Dia Mundial das Telecomunicações e da Sociedade da Informação

Ilustração gerada com o auxílio de inteligência artificial.
Ilustração gerada com o auxílio de inteligência artificial.

Ilustração gerada com o auxílio de inteligência artificial.

A relação entre o Dia Nacional das Comunicações, celebrado em 5 de maio, e o Dia Mundial das Telecomunicações e da Sociedade da Informação, comemorado em 17 de maio, revela uma coincidência histórica singular. No mesmo ano e no mesmo mês de maio de 1865 ocorreram dois marcos fundamentais para a história das comunicações. Em 5 de maio de 1865, nasceu o Marechal Cândido Mariano da Silva Rondon, patrono das comunicações no Brasil. Apenas doze dias depois, em 17 de maio de 1865, foi fundada, em Paris, a União Internacional de Telecomunicações (UIT), a mais antiga organização intergovernamental em atividade no mundo. Essa coincidência histórica simboliza, em escala nacional e internacional, o papel das telecomunicações como instrumento de integração territorial, desenvolvimento econômico e aproximação entre os povos.

A criação da UIT decorreu da necessidade de estabelecer regras técnicas comuns para permitir que redes telegráficas de diferentes países operassem de forma interoperável. Em meados do século XIX, o telégrafo já havia revolucionado as comunicações, mas a ausência de padrões internacionais dificultava a troca de mensagens entre nações, uma vez que cada administração adotava seus próprios procedimentos e especificações técnicas. O desafio era eminentemente de engenharia: garantir que sistemas distintos, concebidos por diferentes países e baseados em tecnologias diversas, pudessem trocar informações de maneira padronizada, confiável e contínua.

Foi justamente para enfrentar esse desafio que vinte países reunidos em Paris assinaram a primeira Convenção Internacional do Telégrafo. Nascia, assim, a então União Telegráfica Internacional, posteriormente denominada União Internacional de Telecomunicações, com a missão de harmonizar normas e procedimentos para assegurar a interoperabilidade das redes de comunicação.

Ao longo das décadas, a atuação da UIT acompanhou a evolução tecnológica das comunicações. O escopo inicialmente restrito ao telégrafo expandiu-se para abranger telefonia, radiocomunicações, televisão, satélites, cabos submarinos, fibras ópticas, redes digitais, internet, sistemas móveis 2G, 3G, 4G e 5G e as bases técnicas das futuras redes 6G.

A incorporação da internet ao campo de atuação da UIT demonstra que sua missão essencial permanece inalterada desde 1865: promover a padronização técnica necessária para garantir que símbolos, caracteres, sinais, escritos, imagens, sons ou informações de qualquer natureza possam ser transmitidos, emitidos ou recebidos, por fio, radioeletricidade, meios ópticos ou qualquer outro processo eletromagnético, de forma compatível, segura e eficiente entre diferentes dispositivos, redes e países.

Essa formulação corresponde, em essência, ao próprio conceito jurídico e técnico de telecomunicações. Independentemente da tecnologia empregada, o objetivo continua sendo o mesmo: permitir que a informação percorra grandes distâncias sem perda de significado, integrando pessoas, organizações e nações.

No Brasil, a institucionalização moderna do setor ganhou novo impulso com a criação da Agência Nacional de Telecomunicações (ANATEL), instituída pela Lei nº 9.472, de 16 de julho de 1997, a Lei Geral de Telecomunicações. Essa legislação definiu serviço de telecomunicações como o conjunto de atividades que possibilita a oferta de telecomunicação, consolidando um modelo regulatório contemporâneo e tecnicamente estruturado.

Entretanto, o protagonismo da engenharia brasileira na compreensão e na regulamentação das telecomunicações antecede em várias décadas a criação da ANATEL. Em 18 de agosto de 1952, o Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (CONFEA), por meio da Resolução nº 78, já definia serviço de telecomunicação como qualquer emissão, transmissão e recepção de sinais, imagens ou sons de qualquer natureza, utilizando princípios elétricos, sônicos, ópticos ou quaisquer outros, por qualquer meio.

A abrangência dessa definição é notável. Elaborada em uma época em que não existiam satélites de comunicação, fibras ópticas, internet, telefonia celular ou redes digitais, a conceituação adotada pelo CONFEA mostrou-se suficientemente ampla para abarcar todas as inovações tecnológicas que surgiriam nas décadas seguintes. Trata-se de uma formulação fundamentada em princípios físicos e de engenharia, e não em tecnologias específicas e transitórias.

A Lei Geral de Telecomunicações, editada quarenta e cinco anos depois, consagrou em âmbito legal uma concepção plenamente compatível com aquela já estabelecida pelo CONFEA. Essa convergência evidencia não apenas o pioneirismo do Sistema CONFEA/CREA, mas também a solidez técnica da engenharia brasileira na compreensão de um dos setores mais dinâmicos e estratégicos da economia contemporânea.

Atualmente, a UIT coordena o uso do espectro de radiofrequências, a ocupação de posições orbitais por satélites, a elaboração de normas técnicas internacionais e iniciativas voltadas à inclusão digital. Em termos práticos, essa organização estabelece as bases que permitem que bilhões de dispositivos, fabricados por empresas diferentes e instalados em países distintos, operem de forma harmoniosa. Sem esse esforço de padronização, tecnologias como telefonia celular, internet, redes ópticas, televisão por satélite, computação em nuvem e futuras redes 6G não poderiam funcionar em escala global.

Por trás dessa infraestrutura invisível está a engenharia.

Cada ligação telefônica, cada mensagem instantânea, cada videoconferência e cada transação digital dependem da aplicação rigorosa de conhecimentos de eletromagnetismo, teoria da informação, processamento digital de sinais, eletrônica, microeletrônica, sistemas embarcados, fibras ópticas e redes de computadores. O que hoje parece simples ao usuário é, na realidade, o resultado de décadas de pesquisa científica e do trabalho de engenheiros que transformaram conceitos abstratos em sistemas robustos e interoperáveis.

As telecomunicações constituem uma das mais sofisticadas realizações da engenharia moderna. Quando um satélite transmite imagens meteorológicas, quando um cabo submarino transporta terabits por segundo entre continentes, quando uma estação rádio base atende milhões de usuários ou quando uma rede óptica conecta cidades inteiras, o que se observa é a materialização do conhecimento técnico em benefício da sociedade.

No Brasil, essa trajetória possui raízes profundas. As linhas telegráficas implantadas pela Comissão Rondon foram decisivas para integrar regiões remotas do território nacional. Mais de um século depois, a mesma vocação integradora se manifesta nas redes de fibra óptica, nos enlaces de micro-ondas, nos sistemas satelitais e nas redes móveis de quarta e quinta gerações. A tecnologia evoluiu, mas a missão permanece a mesma: conectar pessoas, instituições e territórios.

Hoje, as telecomunicações são reconhecidas como infraestrutura crítica. Sustentam o funcionamento do sistema financeiro, da saúde, da educação, da segurança pública, da indústria, da logística e da administração pública. Sem redes confiáveis, não há comércio eletrônico, ensino a distância, telemedicina, automação industrial ou serviços digitais. Em outras palavras, a sociedade da informação depende diretamente da infraestrutura concebida e mantida pela engenharia.

O Dia Mundial das Telecomunicações e da Sociedade da Informação também convida à reflexão sobre desafios contemporâneos, como inclusão digital, segurança cibernética e redução das desigualdades no acesso à conectividade. Todos esses temas possuem um elemento comum: a necessidade de infraestrutura tecnológica projetada, implantada e operada por profissionais legalmente habilitados e tecnicamente qualificados.

Nesse contexto, destacam-se os engenheiros de telecomunicações, engenheiros eletricistas, engenheiros de computação e demais profissionais das áreas tecnológicas correlatas. São esses profissionais que convertem conhecimento científico em soluções concretas, capazes de ampliar a conectividade, elevar a produtividade e promover o desenvolvimento social e econômico.

A celebração de 17 de maio transcende, portanto, seu caráter simbólico. Trata-se do reconhecimento de que a conectividade global, um dos pilares da civilização contemporânea, é resultado direto da aplicação da ciência e do rigor técnico da engenharia.

Se no dia 5 de maio celebramos o nascimento do Marechal Rondon, cuja atuação ajudou a conectar o Brasil, em 17 de maio homenageamos a fundação da União Internacional de Telecomunicações, instituição responsável por estabelecer as bases técnicas que conectam o mundo. Ambos os marcos ocorreram no mesmo ano e no mesmo mês de maio de 1865.

Essa coincidência histórica reforça uma verdade incontestável: comunicar é uma conquista da ciência, mas conectar, em escala nacional e global, é uma realização da engenharia. Onde há inovação, conectividade e transformação digital, há, necessariamente, a presença da engenharia.

Autor
Eng. Eletric. Rogerio Moreira Lima
Diretor de Inovação e Diretor Estadual MA da ABTELECOM
Especialista da ABEE Nacional
Embaixador da ABRACOPEL
Titular da Cadeira nº 54 e Diretor de Relações Institucionais da Academia Maranhense de Ciências
1º Secretário da ABEE-MA
Membro do SENGE-MA e do CEM
Professor da UEMA

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Leilão da faixa de 700 MHz impulsiona conectividade no Brasil com R$ 2 bilhões em investimentos

O recente leilão da faixa de 700 MHz, conduzido pela Anatel em parceria com o Ministério das Comunicações, marca um avanço significativo na expansão da infraestrutura digital no país. A iniciativa deve gerar cerca de R$ 2 bilhões em investimentos voltados à ampliação da conectividade em áreas remotas e rodovias federais.

Expansão da cobertura e inclusão digital

O principal objetivo do certame é reduzir o déficit de cobertura em regiões ainda desassistidas. Ao todo, 864 localidades remotas passarão a contar com sinal de telefonia móvel 4G ou superior, beneficiando aproximadamente 680 mil pessoas.

Além disso, cerca de 6,5 mil quilômetros de rodovias federais, incluindo a BR-101, terão cobertura de conectividade, ampliando a segurança viária e a eficiência logística em importantes corredores do país.

Competitividade e fortalecimento do setor

O leilão contou com a participação de quatro operadoras: Amazônia Serviços Digitais, Brisanet, Unifique e IEZ!, que arremataram lotes regionais estratégicos. O modelo adotado priorizou investimentos em infraestrutura, reforçando o caráter não arrecadatório da iniciativa e estimulando a competição no setor.

A ampliação do acesso ao espectro, especialmente na faixa de 700 MHz — reconhecida por seu alto alcance e eficiência — permite que operadoras regionais expandam suas redes com maior qualidade e capilaridade.

Impacto estratégico para o futuro da conectividade

A expansão da cobertura móvel em áreas rurais e rodovias representa um passo essencial para o desenvolvimento socioeconômico do país. A conectividade não apenas viabiliza inclusão digital, mas também impulsiona setores como logística, agronegócio, segurança pública e serviços essenciais.

O projeto também reforça o compromisso do governo em dobrar a cobertura móvel em áreas rurais, promovendo acesso equitativo à tecnologia e reduzindo desigualdades regionais.

Um marco para a infraestrutura digital brasileira

A utilização da faixa de 700 MHz é considerada estratégica por sua capacidade de alcançar longas distâncias e oferecer melhor desempenho em ambientes internos — fator decisivo para regiões com baixa densidade populacional.

Para o ecossistema de telecomunicações, essa iniciativa representa mais do que expansão de rede: trata-se da construção de uma base sólida para o futuro digital do Brasil, com maior competitividade, inovação e acesso universal à conectividade.

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Anatel e ITA avançam em projeto de Inteligência Artificial para transformar telecomunicações no Brasil

Workshop apresenta resultados parciais de estudos aplicados à regulação e destaca impactos diretos na qualidade dos serviços, na segurança digital e na experiência do usuário

Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), por meio do Centro de Altos Estudos em Comunicações Digitais e Inovações Tecnológicas (Ceadi), realizou, nos dias 30 e 31 de março, o 2º Workshop do projeto de aplicação de Inteligência Artificial (IA) no setor de telecomunicações, em parceria com o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA). A iniciativa integra o Termo de Execução Descentralizada (TED) nº 3/2023.

O evento ocorreu na Anatel, em São Paulo (SP), e reuniu especialistas, pesquisadores e servidores da Agência, que tiveram acesso aos resultados parciais dos estudos. O primeiro dia foi aberto ao público, com foco na transparência e na disseminação do conhecimento. Já o segundo foi dedicado ao alinhamento técnico entre as equipes, com definição de metodologias e desenvolvimento de provas de conceito.

Na abertura, o conselheiro da Anatel e presidente do Ceadi, Alexandre Freire, destacou que o projeto representa um avanço na construção de uma regulação mais moderna, baseada em evidências e orientada por dados. Segundo ele, o uso de Inteligência Artificial amplia a capacidade de análise da Agência diante da crescente complexidade das redes e dos serviços digitais.

“A modernização institucional brasileira para enfrentar os desafios do mundo digital é urgente. Não buscamos apenas tecnologia por tecnologia, mas sim ferramentas que permitam à Anatel cumprir sua missão legal de reavaliar periodicamente a regulamentação, promovendo a competição e a adequação à evolução do mercado”, afirmou.

O chefe da Assessoria Técnica da Anatel e secretário do Ceadi, João Marcelo Azevedo Marques Mello da Silva, ressaltou que a parceria com o ITA fortalece a integração entre ciência, tecnologia e regulação, contribuindo para soluções inovadoras com aplicação prática no setor.

Também participaram da abertura a superintendente de Fiscalização, Gesiléa Fonseca Teles; a assessora da Superintendência de Controle de Obrigações (SCO), Cristianne Barros Polo; e o professor do ITA e coordenador do projeto, Renato Machado.

O projeto está estruturado em seis eixos estratégicos, que orientam o desenvolvimento das pesquisas e suas aplicações diretas na atuação regulatória e na vida do cidadão.

No eixo de estimação do Índice de Qualidade dos Serviços (IQS) e classificação de municípios, são utilizadas técnicas de análise de dados e redes neurais para identificar padrões de desempenho dos serviços de telecomunicações. Na prática, isso permite à Anatel compreender melhor as diferenças regionais e direcionar ações mais precisas para melhorar a qualidade onde ela é mais necessária, beneficiando diretamente os usuários com serviços mais estáveis e eficientes.

O eixo de qualidade de serviço (QoS) versus capacidade da infraestrutura analisa a relação entre o volume de tráfego de dados e a estrutura disponível das redes. O objetivo é garantir que a expansão do uso da internet e das telecomunicações seja acompanhada por investimentos adequados, evitando sobrecargas e assegurando uma experiência de navegação mais rápida e confiável para a população.

Na frente de cibersegurança, o projeto aplica Inteligência Artificial e machine learning (aprendizado de máquina) para detectar ameaças em tempo real e antecipar riscos. Isso fortalece a proteção das redes e dos dados dos usuários, contribuindo para um ambiente digital mais seguro, inclusive para pequenos provedores, que passam a contar com ferramentas mais acessíveis de proteção.

O eixo de monitoramento de espectro busca implementar sistemas automatizados para acompanhar o uso das radiofrequências. Com isso, a Agência pode atuar de forma mais preventiva, evitando interferências que prejudicam serviços como telefonia móvel, rádio e internet sem fio, o que se traduz em maior qualidade e continuidade dos serviços para a população.

No monitoramento de marketplaces, a IA é utilizada para identificar anúncios de produtos irregulares ou não homologados, além de práticas enganosas. Esse trabalho reforça a proteção do consumidor, reduzindo riscos na compra de equipamentos de telecomunicações e promovendo um mercado mais justo e seguro.

Por fim, o eixo de análise de redes sociais utiliza dados públicos de plataformas digitais para identificar, em tempo real, falhas e interrupções nos serviços a partir dos relatos dos usuários. Essa abordagem amplia a capacidade de resposta da Anatel, permitindo ações mais rápidas diante de problemas que impactam diretamente o dia a dia da população.

A aplicação da Inteligência Artificial no setor de telecomunicações representa um avanço relevante para a transformação digital do país. Entre os principais impactos estão a melhoria da qualidade dos serviços, o aumento da eficiência regulatória, o fortalecimento da segurança digital e a ampliação da proteção ao consumidor.

Com a parceria, a Anatel reforça seu compromisso com a inovação e com o uso de tecnologias avançadas para aprimorar a regulação, garantindo que o Brasil acompanhe a evolução do setor e ofereça serviços cada vez mais confiáveis, acessíveis e seguros à sociedade.

Fonte: ANATEL

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Regulamentação de IA deve ser baseada em princípios, fomentar inovação e garantir transparência

ANATEL
Ao participar do painel “Hello Mobile AI”, a conselheira substituta Cristiana Camarate destacou o uso ético de aplicações baseadas em IA em toda a cadeia de valor das telecomunicações

Durante o GTI Summit, no Mobile World Congress (MWC 2026), a conselheira substituta da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) Cristiana Camarate defendeu uma postura regulatória baseada em princípios, que fomente a inovação sem negligenciar os riscos de segurança e a neutralidade de rede. A visão do regulador brasileiro foi apresentada por Camarate na manhã desta terça-feira (3), durante o painel “Hello Mobile AI”.

Em seu discurso, a conselheira apresentou a visão do regulador brasileiro sobre a integração entre a Inteligência Artificial (IA) e as infraestruturas de conectividade. A Anatel examina as possibilidades em que o arcabouço regulatório afeta o uso de IA e os riscos de cibersegurança decorrentes dessas tecnologias emergentes. Segundo Camarate, o uso ético de aplicações baseadas em IA em toda a cadeia de valor das telecomunicações permite a gestão inteligente da infraestrutura.

Por meio de algoritmos avançados capazes de realizar manutenção preditiva, alocação dinâmica de recursos, balanceamento de carga e gestão de espectro, as operadoras podem otimizar o desempenho da rede, ao mesmo tempo em que aumentam a confiabilidade e a disponibilidade do serviço. “Nesse contexto, a IA não é meramente uma ferramenta de apoio, mas um verdadeiro pilar de inovação e de alcance dos objetivos de desenvolvimento sustentável no setor de telecomunicações”, afirmou.

Postura

Sobre a atuação da Agência, a conselheira ressaltou que a Anatel optou por uma abordagem “baseada em princípios e menos prescritiva”. O objetivo é evitar a rápida obsolescência das regras e não criar barreiras desnecessárias à inovação. A conselheira informou que, até o momento, não foram identificadas normas que impeçam o desenvolvimento da IA no Brasil, mas destacou que a fiscalização será ativa e diligente.

“Deixamos claro às entidades reguladas que, em nossas atividades de fiscalização, poderemos avaliar equipamentos, aplicações, sistemas e ferramentas baseados em IA, bem como os dados utilizados para seu treinamento e outros elementos que sustentam seu desenvolvimento e implantação”, explicou.

Ela acrescentou que as propostas regulatórias, que passaram por consulta pública, devem ser deliberadas em breve pelo Conselho Diretor da Anatel. Camarate encerrou reforçando que soluções equilibradas só serão alcançadas por meio do diálogo entre as múltiplas partes interessadas e de uma regulação baseada em evidências.

Integração

Com a evolução para o 5G e a futura padronização do 6G — cujas primeiras redes comerciais são esperadas para 2030 —, a automação baseada em IA torna-se, segundo Cristiana Camarate, essencial para garantir a escalabilidade e a resiliência das redes. No entanto, a integração nativa da IA traz novos desafios, especialmente no que diz respeito à coleta de dados sensíveis e aos processos de tomada de decisão autônomos.

Para mitigar riscos relacionados à falta de transparência, a conselheira destacou a importância da IA Explicável (XAI), contrapondo-a ao modelo de “caixas-pretas” (black boxes), que pode dificultar a fiscalização e minar a confiança do usuário. “A transparência e a explicabilidade algorítmica são essenciais para que os profissionais de rede possam validar e ajustar recomendações automatizadas, garantindo que os objetivos de otimização sejam alcançados de maneira responsável e auditável”, destacou.

Neutralidade

Outro ponto do discurso da conselheira da Anatel no painel do GTI Summit foi o impacto da IA na gestão do fatiamento de rede (network slicing). Ao citar o estudo “IA e Automação: uma visão geral”, da Global System for Mobile Communications Association (GSMA), Camarate destacou preocupações de que algoritmos mal calibrados ou enviesados possam introduzir vieses na priorização de tráfego, o que feriria o Marco Civil da Internet.

“A legislação brasileira proíbe expressamente que os prestadores de serviços discriminem o tráfego com base no conteúdo, aplicação, origem ou destino. O Marco Civil da Internet consagra o princípio da neutralidade de rede”, afirmou.

No campo da segurança, embora a IA auxilie na detecção de ameaças em tempo real, ela também amplia a superfície de ataque, como no caso do envenenamento de dados (data poisoning) e do uso de IA generativa para ataques de engenharia social mais sofisticados.

Fonte: ANATEL

A engenharia de telecomunicações no centro da política pública para 2026

Imagem gerada por IA

A engenharia de telecomunicações no centro da política pública para 2026
Infraestrutura digital, inclusão e soberania tecnológica como compromisso nacional

 

Quando se fala em engenharia, grande parte da sociedade ainda associa o termo quase exclusivamente à engenharia civil. Pontes, edifícios e rodovias são facilmente visualizados. Contudo, existe uma infraestrutura igualmente essencial, estratégica e estruturante, ainda que invisível aos olhos: a infraestrutura de telecomunicações. É ela que sustenta a conectividade, a economia digital, os serviços públicos digitais e a própria transformação tecnológica do país.
A meta anunciada pelo Ministério das Comunicações de conectar todas as escolas públicas brasileiras até 2026 revela a dimensão desse desafio. Conforme divulgado pelo Ministério das Comunicações em seu sítio eletrônico, durante o Seminário Políticas de Comunicações realizado na Universidade de Brasília, o secretário de Telecomunicações, Hermano Tercius, informou que 98 mil das 138 mil escolas públicas já estão conectadas, restando aproximadamente 40 mil unidades a serem integradas até o final de 2026.
Para o público leigo, conectar uma escola pode parecer apenas instalar internet. Na realidade, trata-se de um processo técnico complexo que envolve projeto de rede, dimensionamento de capacidade, estudo de link budget, ou balanço de potência, análise de tráfego, garantia de qualidade de serviço, controle de latência, segurança cibernética, redundância e sustentabilidade operacional. Em regiões remotas, a solução exige integração entre fibra óptica, enlaces de rádio digital de alta capacidade e sistemas satelitais. Cada escola conectada pressupõe planejamento de backbone, compatibilização com redes existentes e responsabilidade técnica claramente definida.
É nesse cenário que se evidencia o papel dos engenheiros eletricistas, engenheiros em eletrônica, engenheiros de telecomunicações e engenheiros de computação. O engenheiro atua no planejamento, no projeto e na sustentação da infraestrutura de telecomunicações, garantindo confiabilidade energética, desempenho de rede, integração entre sistemas, qualidade de transmissão, segurança da informação e estabilidade operacional. É esse trabalho técnico especializado que viabiliza, na prática, a conectividade e sustenta a transformação digital do país.
Também conforme divulgado pelo Ministério das Comunicações em seu sítio eletrônico, outra meta para 2026 é a apresentação do Plano Nacional de Inclusão Digital, que contemplará mapeamento e ações concretas para enfrentar a exclusão digital no país. A exclusão não se limita à ausência de sinal. Envolve desigualdade de acesso a dispositivos, déficit de letramento digital e limitações de capacitação técnica local. Superar esse cenário exige planejamento estruturado, integração entre políticas públicas e atuação regulatória consistente da Agência Nacional de Telecomunicações.
No mesmo contexto, o Ministério também destacou políticas nacionais voltadas à conectividade em rodovias, à expansão de cabos submarinos e ao fortalecimento de data centers no território nacional, conforme igualmente divulgado em seu sítio eletrônico. Esses eixos estruturam a base da soberania digital brasileira. Rodovias conectadas ampliam segurança e viabilizam sistemas inteligentes de transporte. Cabos submarinos fortalecem a inserção internacional do Brasil na economia digital. Data centers garantem processamento e armazenamento de dados com eficiência e segurança.
É fundamental que a sociedade compreenda que a infraestrutura digital é tão estruturante quanto a infraestrutura física. A engenharia civil constrói o que se vê. A engenharia de telecomunicações constrói o que conecta, transmite, processa e protege as informações que movimentam a economia, os serviços públicos e a própria dinâmica do país.
O horizonte de 2026 impõe responsabilidade técnica e institucional. Não basta cumprir metas quantitativas. É necessário assegurar qualidade, desempenho e sustentabilidade. A universalização da conectividade somente será efetiva se estiver fundamentada em projetos bem dimensionados, fiscalização adequada e valorização dos engenheiros que sustentam essa transformação.
Conectar escolas é preparar gerações. Estruturar redes é fortalecer soberania. Valorizar a engenharia de telecomunicações é reconhecer que o desenvolvimento contemporâneo depende não apenas do concreto que se ergue, mas também da energia, do espectro, dos circuitos, dos protocolos e dos sistemas que mantêm o Brasil conectado.
Autor
Engenheiro Eletricista Rogério Moreira Lima Silva
Diretor de Inovação e Diretor Estadual no Maranhão da ABTELECOM; Especialista da ABEE Nacional e 1º Secretário da ABEE-MA; Embaixador da ABRACOPEL e do Instituto EWRAN; Membro do SENGE-MA e do CEM; Titular da Cadeira nº 54 e Diretor de Relações Institucionais da Academia Maranhense de Ciências; Professor da Universidade Estadual do Maranhão.

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Fake news tecnológica: não existe 5G sem antena

Fake news tecnológica: não existe 5G sem antena

Fake news tecnológica: não existe 5G sem antena

Conectividade direta via satélite não elimina antenas, apenas dispensa a ERB
Nos últimos dias, manchetes chamativas passaram a afirmar que seria possível oferecer 5G diretamente do espaço “sem antena”. A frase impressiona, mas do ponto de vista da ciência e da engenharia de telecomunicações, ela está errada e induz a uma compreensão equivocada sobre como a comunicação sem fio realmente funciona.
Para começar pelo ponto central, não existe comunicação sem fio sem antena. A antena é o componente físico que permite que a energia elétrica, que circula dentro dos equipamentos, seja transformada em ondas eletromagnéticas capazes de viajar pelo espaço. Sem esse processo, nenhum sinal sai do aparelho, seja em rádio, TV, Wi-Fi, 4G, 5G ou comunicações via satélite.
A base científica disso vem do eletromagnetismo. No século XIX, James Clerk Maxwell demonstrou que eletricidade e magnetismo não são fenômenos independentes. Ao introduzir o conceito de corrente de deslocamento, ele mostrou que um campo elétrico que varia no tempo também gera campo magnético, mesmo quando não há corrente elétrica fluindo de forma convencional. Esse ajuste foi essencial para manter a coerência física das leis do eletromagnetismo e explicar a existência das ondas eletromagnéticas.
Em termos simples, campos elétricos variáveis produzem campos magnéticos, e campos magnéticos variáveis produzem campos elétricos. Essa interação contínua e auto sustentada é o que permite que a energia eletromagnética se propague pelo espaço transportando informação.
Na prática, quando um condutor metálico é excitado por uma fonte de alta frequência, como ocorre em sistemas de telecomunicações, estabelece-se ao longo dele um campo elétrico que varia rapidamente no tempo. Essa variação gera um campo magnético associado. Quando as dimensões desse sistema são compatíveis com o comprimento de onda do sinal, parte da energia deixa de permanecer confinada ao condutor e passa a se espalhar pelo espaço livre. Esse espalhamento é o fenômeno da radiação eletromagnética.
É exatamente esse o papel da antena.
A antena é um sistema irradiante, projetado para converter energia elétrica guiada em energia eletromagnética propagante. Ela não é um acessório nem um detalhe secundário do sistema. É o elemento que torna a comunicação sem fio fisicamente possível.
Além disso, a teoria mostra que as ondas eletromagnéticas não se propagam de forma aleatória. As equações de Helmholtz, derivadas das equações de Maxwell, descrevem ondas com direção bem definida e com polarização específica. A onda possui orientação, sentido de propagação e estrutura bem estabelecida no espaço.
E é a antena que define essa polarização.
A posição física da antena determina se a polarização da onda será vertical, horizontal ou circular. Sua geometria e sua configuração influenciam diretamente o alcance do sinal, a direção preferencial de propagação e a forma como a energia se distribui no espaço, por meio de parâmetros como ganho, diretividade e diagrama de radiação.
Em termos simples, a antena não apenas permite que o sinal exista. Ela molda o próprio comportamento da onda eletromagnética transmitida.
Grande parte da confusão presente nas manchetes vem da mistura de dois conceitos diferentes: antena e Estação Rádio Base, a chamada ERB. A ERB é um conjunto completo de equipamentos que inclui rádios, sistemas de controle, energia, transmissão e, evidentemente, antenas. Quando se afirma que uma tecnologia dispensa ERBs, o que se está dizendo é que não será necessária a instalação de infraestrutura terrestre tradicional. Isso não significa, em hipótese alguma, que as antenas deixaram de existir.
Nos serviços tradicionais de internet via satélite, o usuário precisa instalar uma antena externa dedicada. Em propostas mais recentes de conectividade direta via satélite, essa antena externa deixa de ser necessária. No entanto, o telefone celular continua utilizando antenas internas integradas ao seu sistema de radiofrequência, enquanto os satélites empregam arranjos avançados de antenas para transmissão e recepção dos sinais.
Essas soluções fazem parte do conceito de redes não terrestres, previsto nos padrões definidos pelo 3GPP, que tratam da integração do 5G com plataformas orbitais. Nesse modelo, o satélite assume o papel de ponto de acesso da rede, enquanto o dispositivo do usuário continua operando como qualquer sistema de rádio, com antena, campos eletromagnéticos e propagação no espaço.
Portanto, a forma correta de explicar essa inovação não é afirmar que existe “5G sem antena”, mas sim que há 5G sem infraestrutura terrestre tradicional. A diferença é fundamental do ponto de vista técnico.
A tecnologia pode evoluir, as arquiteturas podem mudar e os sistemas podem se tornar cada vez mais sofisticados. O que não muda são as leis da física. Sempre que houver comunicação sem fio, haverá campos elétricos e magnéticos se propagando pelo espaço livre. E sempre que isso ocorrer, haverá um sistema irradiante responsável por essa radiação. Pode-se dispensar torres e estações rádio base no solo. Antenas, não. Onde há onda eletromagnética, há antena. Negar isso não é inovação. É desconhecer os fundamentos da engenharia.

Autor
Engenheiro Eletricista Rogerio Moreira Lima Silva
Diretor de Inovação e Diretor Estadual no Maranhão da ABTELECOM, Especialista da ABEE Nacional e 1º Secretário da ABEE-MA, Embaixador da ABRACOPEL e do Instituto EWRAN, membro do SENGE-MA e do CEM, Diretor de Relações Institucionais da Academia Maranhense de Ciências e professor da Universidade Estadual do Maranhão.

Telecomunicações e Engenharia na Era da Transformação Digital

telecomunicacoes e engenharia

A engenharia por trás da conectividade, da inovação e do desenvolvimento tecnológico

Ao mesmo tempo em que sustentam a transformação digital, a inovação e a integração da sociedade, as telecomunicações figuram entre os campos mais complexos da engenharia moderna. A afirmação de que “telecom é difícil”, longe de ser um exagero, reflete a elevada densidade técnica, matemática e regulatória que caracteriza a área. Afinal, como ocorre em todas as modalidades da engenharia, a Engenharia de Telecomunicações exige domínio aprofundado de matemática e física, que constituem a base para a compreensão e o projeto dos sistemas de comunicação. Compreender essa complexidade é fundamental para entender por que a Engenharia de Telecomunicações ocupa papel estratégico no avanço tecnológico do Brasil.

Do ponto de vista legal e conceitual, a própria definição de telecomunicações já evidencia essa abrangência técnica. Nos termos do art. 60 da Lei nº 9.472/1997, telecomunicação é a transmissão, emissão ou recepção, por fio, radioeletricidade, meios ópticos ou qualquer outro processo eletromagnético, de símbolos, caracteres, sinais, escritos, imagens, sons ou informações de qualquer natureza. Essa definição deixa claro que as telecomunicações envolvem, de forma indissociável, sistemas físicos, fenômenos eletromagnéticos, processamento de sinais e redes complexas de transmissão de informação.

Fica evidente, portanto, que as telecomunicações são, em sua essência, engenharia aplicada, muito antes mesmo de serem expressamente reconhecidas como atividade característica da engenharia pelo art. 1º, alínea “b”, da Lei nº 5.194/1966. Já em 18 de agosto de 1952, a Resolução CONFEA nº 78 atribuía as atividades de telecomunicações aos engenheiros eletricistas e mecânicos-eletricistas, demonstrando o pioneirismo do Sistema CONFEA na regulamentação técnica do setor. À época, o próprio Conselho já definia serviço de telecomunicações como qualquer emissão, transmissão ou recepção de sinais, imagens ou sons de qualquer natureza, utilizando princípios elétricos, sônicos, ópticos ou outros quaisquer, por meio de qualquer sistema ou meio de propagação. Esse histórico normativo evidencia que as telecomunicações sempre foram tratadas, desde sua origem regulatória, como um campo eminentemente técnico e científico, indissociável da engenharia, muito antes da edição da Lei Geral de Telecomunicações, em 1997.

Esse reconhecimento inicial não permaneceu estático. À medida que os sistemas de comunicação se tornaram mais complexos, incorporando técnicas avançadas de modulação, teoria da informação, processamento digital de sinais, redes e sistemas de rádio cada vez mais sofisticados, o campo das telecomunicações passou por um processo natural de especialização profissional. Esse movimento conduziu, primeiro, à consolidação do engenheiro de comunicação e, posteriormente, ao reconhecimento formal do engenheiro de telecomunicações como campo específico da engenharia, com formação própria, currículo dedicado e competências técnicas altamente especializadas.

A dificuldade da Engenharia de Telecomunicações não decorre apenas do volume de conteúdos ou do rigor acadêmico. Ela está profundamente associada à fragilidade da formação matemática básica com a qual muitos estudantes chegam ao ensino superior. O curso pressupõe domínio consistente, ainda no ensino médio, de funções, trigonometria, geometria analítica, vetores e fundamentos da física clássica, conteúdos que não são retomados de forma introdutória, mas imediatamente aprofundados e utilizados como linguagem básica para disciplinas centrais da formação.

Esse diagnóstico é empírico. O Brasil ocupou a 65ª posição em Matemática no PISA 2023, entre 81 países avaliados, evidenciando um descaso histórico com o ensino de base e com a formação científica. Esse resultado ajuda a explicar por que áreas intensivas em matemática, física e raciocínio abstrato, como a Engenharia de Telecomunicações, são frequentemente percebidas como excessivamente difíceis. Em contrapartida, países que valorizam a engenharia, a ciência e a pesquisa estruturam seu desenvolvimento sobre projetos tecnicamente sólidos, planejamento eficiente e execução responsável.

A partir dessa base fragilizada, o estudante passa a lidar com matemática de nível superior, como cálculo diferencial e integral, álgebra linear, equações diferenciais, análise complexa, séries e transformadas de Fourier, além de processos estocásticos. Quando essa base não está devidamente consolidada, a dificuldade enfrentada não é circunstancial ou pontual, mas estrutural, comprometendo de forma contínua o acompanhamento e a assimilação dos conteúdos próprios da Engenharia de Telecomunicações.

Na Engenharia de Telecomunicações, esses instrumentos matemáticos constituem o núcleo da formação técnica. A análise espectral de sinais exige domínio da transformada de Fourier, essencial para a caracterização da densidade espectral de potência, da largura de banda ocupada, da eficiência espectral e do impacto do ruído e das interferências sobre o desempenho dos sistemas de comunicação.

Essa base matemática se materializa diretamente em tecnologias amplamente utilizadas. Um exemplo emblemático é o OFDM, técnica central em sistemas como LTE, 5G e Wi-Fi. O OFDM é, essencialmente, uma aplicação direta da transformada discreta de Fourier, implementada por meio de algoritmos de FFT e IFFT, permitindo a decomposição do sinal em múltiplas subportadoras ortogonais, com elevada eficiência espectral e maior robustez frente aos efeitos do multipercurso.

Outro eixo estruturante da formação é o estudo da propagação de ondas eletromagnéticas. Em sistemas sem fio, a propagação ocorre no espaço livre ou em meios atmosféricos, envolvendo fenômenos como atenuação, reflexão, refração, difração, espalhamento, multipercurso e interferência. O projeto de enlaces e redes móveis baseia-se em modelos consolidados internacionalmente, estabelecidos em recomendações da ITU-R, como as Recomendações P.525, P.526 e P.1411, amplamente utilizadas no planejamento de cobertura e no controle de interferências.

Nos meios guiados metálicos, como pares trançados, cabos coaxiais e guias de onda, a propagação também é eletromagnética, sendo descrita pelas equações de Maxwell e pela teoria de linhas de transmissão, que modela a distribuição espacial dos campos, a impedância característica e os fenômenos de atenuação e reflexão. A fibra óptica, por sua vez, constitui um guia de onda dielétrico, no qual a propagação ocorre na faixa óptica do espectro por reflexão total interna, exigindo igualmente a modelagem a partir das equações de Maxwell, com a aplicação rigorosa das condições de contorno eletromagnéticas na interface entre núcleo e casca.

A coexistência de múltiplos modos de propagação pode dar origem à dispersão intermodal, que, somada à dispersão cromática, impõe limites físicos à taxa de símbolos e ao alcance dos sistemas de comunicação óptica, influenciando diretamente o projeto de enlaces, a escolha do tipo de fibra e as margens de desempenho dos sistemas.

No campo das redes ópticas de acesso, esses fenômenos físicos são tratados de forma normatizada pelas recomendações da ITU-T. A Recomendação ITU-T G.984, que define o padrão GPON, estabelece parâmetros físicos, ópticos e de transmissão para redes FTTH, garantindo interoperabilidade entre fabricantes, compartilhamento eficiente da infraestrutura e altas taxas de transmissão.

Nas comunicações sem fio, o planejamento de redes móveis envolve ainda medições em campo por meio de drive tests, etapa essencial para validar modelos teóricos, ajustar parâmetros de rede e garantir qualidade de serviço. O canal rádio móvel é modelado como um processo estocástico estacionário no sentido amplo, com espalhadores descorrelacionados, no qual a resposta impulsiva apresenta variações estatísticas no tempo e na frequência em decorrência do multipercurso e da mobilidade. Essa dispersão temporal e espectral constitui a origem física da interferência intersimbólica, impondo limites práticos à taxa de símbolos e, consequentemente, à taxa de transmissão, analisados à luz do critério de Nyquist e da teoria da capacidade de canal.

Importa destacar que as telecomunicações envolvem riscos relevantes para trabalhadores e para a população em geral. A atuação em infraestruturas compartilhadas com o Sistema Elétrico de Potência expõe profissionais a riscos elétricos tratados pela NR-10, os trabalhos em altura enquadram-se na NR-35 e a exposição à radiação não ionizante é tratada pela NR-15, Anexo 7, reforçando a necessidade de responsabilidade técnica e de Anotação de Responsabilidade Técnica.

Merece destaque especial a revisão da NR-10, que solucionou um impasse histórico envolvendo os trabalhadores de telecomunicações que atuam em infraestruturas compartilhadas com o Sistema Elétrico de Potência. A norma passou a reconhecer formalmente que as atividades de telecomunicações expõem os profissionais a riscos elétricos por proximidade, especialmente em postes e estruturas compartilhadas, sem equipará-los às atividades típicas de eletricistas de linha viva. Para esse cenário específico, a nova NR-10 instituiu o Treinamento de Segurança Específico para Compartilhamento de Infraestrutura do Sistema Elétrico de Potência, com carga horária mínima de 40 horas, direcionado às particularidades das telecomunicações. Esse avanço normativo amplia a segurança jurídica, assegura qualificação adequada e reforça a necessidade de planejamento técnico, supervisão por engenheiro legalmente habilitado e formalização da responsabilidade técnica por meio da Anotação de Responsabilidade Técnica nos serviços de telecomunicações realizados em ambientes com risco elétrico.

No plano dos serviços prestados à sociedade, a Engenharia de Telecomunicações se materializa na oferta de banda larga, telefonia móvel e TV por assinatura, serviços essenciais à transformação digital, à inovação, à economia baseada em dados e à inclusão social.

Em suma, não existe transformação digital sem telecomunicações, nem avanço tecnológico sem engenharia. A complexidade técnica da Engenharia de Telecomunicações não constitui um entrave, mas a base que sustenta a conectividade, a inovação e o desenvolvimento tecnológico do Brasil.

Autor
Engenheiro Eletricista Rogerio Moreira Lima Silva
Diretor de Inovação e Diretor Estadual no Maranhão da ABTELECOM, Especialista da ABEE Nacional e 1º Secretário da ABEE-MA, Embaixador da ABRACOPEL, membro do SENGE-MA e do CEM, Diretor de Relações Institucionais da Academia Maranhense de Ciências e professor da Universidade Estadual do Maranhão.

5G em São Luís: infraestrutura avançada, desafios reais

Como densidade de antenas, qualidade do sinal e otimização da rede explicam a experiência do usuário

São Luís já conta com uma infraestrutura 5G numericamente robusta, com centenas de células em operação e metas regulatórias formalmente atendidas. Ainda assim, reclamações sobre variações de desempenho fazem parte do cotidiano de muitos usuários. Essa aparente contradição ajuda a entender por que o 5G, apesar de tecnologicamente avançado, não pode ser avaliado apenas pelo número de antenas ou pela existência de cobertura nominal. A experiência real do usuário depende de uma combinação de fatores, entre eles a densidade celular, a qualidade efetiva do sinal e o processo contínuo de otimização das redes.

A densidade de antenas 5G é um dos principais indicadores do estágio de implantação da nova geração de redes móveis. Mais do que sinalizar a simples presença da tecnologia, esse parâmetro revela a densidade de células ativas, elemento fundamental para garantir capacidade, estabilidade e qualidade de serviço. No Maranhão, e especialmente em São Luís, essa análise ganha relevância quando observada à luz dos compromissos assumidos pelas operadoras no leilão de radiofrequências conduzido pela Agência Nacional de Telecomunicações, que estabeleceu metas mínimas de cobertura proporcionais ao tamanho da população dos municípios.

Dados do Painel Mapa das Antenas, disponível no sítio eletrônico da Conexis Brasil Digital, indicam que São Luís possui atualmente 477 células 5G em operação, distribuídas em estações rádio base. Desse total, a Vivo opera 161 células, a Claro 156, a TIM 154, enquanto a Brisanet mantém 6 células 5G na capital. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, a população estimada de São Luís em 2025 era de 1.089.215 habitantes, dado essencial para avaliar o atendimento às metas regulatórias.

Pelas regras do leilão, até 31 de julho de 2026, municípios com população superior a 200 mil habitantes devem contar, para cada prestadora, com pelo menos uma célula 5G a cada 15 mil habitantes. No caso de São Luís, isso corresponde a um mínimo de 73 células 5G por operadora. A comparação com a infraestrutura atualmente instalada indica que Vivo, Claro e TIM superam com ampla margem esse patamar mínimo, operando com densidade de células superior ao dobro do exigido. A Brisanet, por sua vez, apresenta uma implantação inicial, compatível com seu perfil de operadora regional.

Os dados de cobertura divulgados pela ANATEL reforçam essa leitura. Em São Luís, 98,24% da população encontra-se em área de cobertura móvel, percentual que alcança 98,71% da população urbana. Nas áreas classificadas como rurais, a cobertura atinge 36,68%, refletindo tanto características geográficas quanto a lógica técnica de implantação das redes, que priorizam regiões com maior concentração populacional e maior demanda por tráfego de dados.

É importante registrar que, a partir de setembro de 2024, houve um ajuste metodológico relevante na forma de estimar a cobertura das tecnologias 4G e 5G, com a revisão dos limiares mínimos de potência recebida de −110 dBm para −90 dBm. Essa mudança reduziu as áreas classificadas como cobertas, mas elevou substancialmente o patamar mínimo de qualidade do sinal adotado nas predições, tornando os mapas de cobertura mais aderentes à experiência real do usuário. Trata-se de um aprimoramento inserido em um arcabouço regulatório voltado à avaliação conjunta da cobertura e da qualidade das redes de comunicações móveis, alinhado às melhores práticas internacionais.

Para o leitor não familiarizado com termos técnicos, vale esclarecer que o dBm expressa a potência do sinal recebido pelo aparelho. Quanto mais negativo o valor, mais fraco é o sinal. Um critério de −110 dBm admite sinais muito fracos, normalmente associados a baixa relação sinal-interferência e ruído, enquanto o critério de −90 dBm exige sinais mais fortes, compatíveis com valores mais elevados de SINR, condição essencial para maiores velocidades e menor taxa de erros.

Na prática, a adoção de limiares mais elevados reduz o raio efetivo de cobertura de cada célula. Isso resulta em menor área atendida por célula e exige, portanto, maior densificação da rede. Como consequência, essa densificação pode levar a uma elevação da interferência co-canal, a qual precisa ser controlada por meio de planejamento criterioso e de processos contínuos de otimização.

Outro aspecto técnico relevante diz respeito ao uso da faixa de 3,5 GHz, principal frequência do 5G no Brasil. Embora essa faixa permita maior capacidade e velocidades mais elevadas, apresenta características de propagação diferentes das frequências mais baixas utilizadas no 4G. Em termos práticos, sinais em 3,5 GHz sofrem maior atenuação, têm menor alcance e são mais sensíveis a obstáculos físicos, como paredes, edificações e vegetação. Como consequência, a cobertura de cada célula tende a ser menor, podendo surgir áreas de sombra em locais onde, com frequências mais baixas, anteriormente havia cobertura satisfatória. Esse efeito não representa uma regressão tecnológica, mas sim uma característica física da propagação em frequências mais altas, reforçando a necessidade de maior densificação da rede, planejamento cuidadoso e otimização contínua.

Para compreender por que o simples aumento de potência não resolve problemas de cobertura, é fundamental considerar que as redes de telefonia celular estão sujeitas a interferências inerentes ao próprio sistema. A interferência co-canal decorre da natureza autointerferente dos sistemas celulares, cuja arquitetura se baseia no reuso de frequências. Nessas condições, a qualidade da comunicação passa a depender fundamentalmente da relação sinal-interferência, e não apenas da potência transmitida. Aumentar indiscriminadamente a potência pode elevar simultaneamente o sinal desejado e o nível de interferência, degradando o desempenho global da rede.

A interferência de canal adjacente está associada a sinais transmitidos em frequências próximas à do canal desejado, geralmente relacionada a limitações de filtragem e ao chamado efeito perto-distante, no qual um transmissor próximo interfere na recepção de sinais mais fracos. Esse tipo de interferência é mitigado por meio de planejamento adequado da alocação de canais, separação espectral, controle de potência e uso de filtros eficientes.

Apesar dos avanços observados nos indicadores de densidade celular e cobertura, o 5G em São Luís ainda é alvo de reclamações por parte de usuários, sobretudo relacionadas à variação de desempenho em determinados locais e horários. Esse descompasso entre métricas globais e experiência individual é comum em fases iniciais de implantação de novas tecnologias.

Do ponto de vista da engenharia, a qualidade percebida pelo usuário está diretamente condicionada ao SINR, que depende da distribuição espacial das células, do carregamento da rede, da mobilidade, das características construtivas do ambiente urbano e da capacidade dos terminais. Em redes 5G, que operam com células menores e maior reutilização espectral, essas variáveis tornam-se ainda mais sensíveis.

É importante destacar que as comunicações móveis são projetadas com base em modelos semiempíricos e probabilísticos. Por essa razão, etapas como drive test e otimização contínua são essenciais. Essas atividades permitem medir SINR, potência recebida, interferência e tráfego real, fornecendo subsídios técnicos para ajustes finos da rede.

No caso de São Luís, esse desafio é ampliado pelo processo contínuo de verticalização urbana, que altera o ambiente de propagação e pode modificar o comportamento do SINR mesmo em áreas anteriormente bem atendidas. Isso reforça a necessidade permanente de planejamento, densificação celular e otimização.

Por fim, é importante destacar que esses desafios fazem parte do próprio processo de engenharia associado à implantação do 5G. Trata-se de uma tecnologia introduzida com padrões técnicos definidos e operacionalmente funcional, porém ainda em processo de amadurecimento tecnológico e operacional, com funcionalidades e otimizações sendo progressivamente incorporadas. Esse modelo de implantação é característico de tecnologias de nova geração e explica a necessidade de ajustes contínuos de rede, aprimoramentos de planejamento e expansão gradual da infraestrutura. Assim, as adaptações observadas não indicam falhas, mas refletem o processo natural de evolução e consolidação de uma tecnologia em desenvolvimento, à medida que ela se adapta às condições reais de uso, ao crescimento do tráfego e às particularidades do ambiente urbano.

 

 

Autor:
Engenheiro Eletricista Rogerio Moreira Lima Silva
Diretor de Inovação e Diretor Estadual no Maranhão da ABTELECOM, Especialista da ABEE Nacional e 1º Secretário da ABEE-MA, Embaixador da ABRACOPEL, membro do SENGE-MA e do CEM, Diretor de Relações Institucionais da Academia Maranhense de Ciências e professor da Universidade Estadual do Maranhão.

Antes da lei, a engenharia regulamentou as telecomunicações

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Muito antes de o Brasil dispor de um marco legal específico para o setor de telecomunicações, a engenharia nacional já havia construído, com rigor técnico e visão prospectiva, os contornos conceituais dessa atividade estratégica. Ainda em 1952, o Conselho Federal de Engenharia e Agronomia editou a Resolução nº 78, estabelecendo uma definição de serviço de telecomunicações que, mesmo analisada à luz do atual estágio tecnológico, revela-se notavelmente avançada.

A Resolução CONFEA nº 78/1952 definiu como serviço de telecomunicação qualquer emissão, transmissão e recepção de sinais, imagens ou sons de qualquer natureza, utilizando princípios elétricos, sônicos, óticos ou outros quaisquer, por qualquer meio. Trata-se de uma formulação tecnicamente neutra, ampla e ancorada em fundamentos científicos, capaz de abranger não apenas as tecnologias existentes à época, mas também aquelas que viriam a se desenvolver décadas mais tarde. Esse dado histórico evidencia o elevado grau de maturidade conceitual da engenharia brasileira já no início da segunda metade do século XX.

Esse entendimento técnico não permaneceu restrito ao âmbito infralegal. Com a edição da Lei nº 5.194/1966, que regulamentou o exercício das profissões de engenheiro, arquiteto e engenheiro-agrônomo, as telecomunicações passaram a ser reconhecidas como atividade característica da engenharia. Ao definir como atribuições privativas dos engenheiros as atividades de estudo, projeto, execução, operação e manutenção de sistemas técnicos baseados em princípios científicos, a lei consolidou o enquadramento das telecomunicações no domínio do exercício profissional da engenharia, em especial da engenharia elétrica. Antes, portanto, de qualquer marco setorial específico, as telecomunicações já estavam juridicamente inseridas no campo das atividades técnicas da engenharia brasileira.

Em 1973, a Resolução CONFEA nº 78/1952 foi formalmente revogada pela Resolução CONFEA nº 218, que promoveu uma reorganização sistemática das atribuições profissionais das diversas modalidades da engenharia. Essa revogação não significou abandono do tema das telecomunicações, mas sim sua incorporação em um arranjo normativo mais estruturado. O artigo 9º da Resolução nº 218/1973 passou a tratar expressamente das atividades relacionadas às telecomunicações, reafirmando-as como campo típico da engenharia elétrica e preservando o vínculo técnico entre telecomunicações e os princípios físicos e eletromagnéticos que lhes dão sustentação. Houve, portanto, continuidade conceitual, e não ruptura normativa.

Esse processo de atualização acompanhou a própria evolução tecnológica do setor. Em 1993, a Resolução CONFEA nº 380 instituiu atribuições provisórias relacionadas às telecomunicações no âmbito da engenharia de computação. À época, tratava-se de uma resposta regulatória a um cenário de transição tecnológica, marcado pela crescente convergência entre computação, redes de dados e sistemas de telecomunicações. O caráter provisório dessas atribuições refletia, de forma adequada, um momento de consolidação ainda em curso, tanto do ponto de vista técnico quanto institucional.

Décadas mais tarde, esse amadurecimento se consolidou com a edição da Resolução CONFEA nº 1.156/2025, que promoveu uma profunda reorganização do arcabouço normativo profissional ao revogar expressamente diversos dispositivos e resoluções anteriores, entre eles os arts. 8º e 9º da Resolução nº 218/1973, a íntegra da Resolução nº 380/1993, além de outros atos editados ao longo das últimas décadas. Esse amplo movimento de revogação não representa negação do passado, mas revela dois aspectos centrais. De um lado, a consolidação, em um único normativo, das atribuições dos engenheiros da modalidade eletricista. De outro, a delimitação definitiva, e não mais provisória, das atribuições do engenheiro de computação, conferindo maior clareza conceitual, coerência normativa e segurança jurídica ao exercício profissional.

A principal inovação introduzida pela Resolução nº 1.156/2025 reside justamente nesse ponto de inflexão institucional. As atribuições dos engenheiros de computação deixam de ocupar um espaço transitório e passam a integrar, de forma estável e estruturada, o sistema de competências profissionais reconhecidas. Esse avanço reflete o reconhecimento de que a engenharia de computação atingiu plena maturidade técnica e científica, especialmente nas áreas associadas às infraestruturas digitais, às redes de telecomunicações, aos sistemas computacionais complexos e à convergência tecnológica que caracteriza as telecomunicações contemporâneas.

Esse reconhecimento assume especial relevância em um contexto no qual as telecomunicações modernas se apoiam fortemente em arquiteturas IP, virtualização, computação distribuída, software e redes inteligentes. Ao tornar definitivas as atribuições do engenheiro de computação e, simultaneamente, consolidar as atribuições da engenharia eletricista, a Resolução nº 1.156/2025 fortalece a segurança jurídica dos profissionais, das empresas e da Administração Pública, ao mesmo tempo em que harmoniza o exercício profissional com a realidade tecnológica atual.

Somente após esse longo percurso de consolidação técnica e profissional é que o Brasil instituiu, em 1997, um marco legal específico para o setor de telecomunicações. Quando isso ocorreu, o conceito técnico de telecomunicações já estava formulado, amadurecido e aplicado há décadas no âmbito da engenharia. A legislação setorial posterior não rompe com essa tradição, mas positivou em lei um entendimento previamente construído no campo técnico-profissional.

Assim, o pioneirismo do CONFEA na regulamentação das telecomunicações não se limita a um registro histórico. Ele demonstra que a engenharia nacional foi protagonista na definição dos fundamentos técnicos que até hoje estruturam o setor, acompanhando a evolução tecnológica com coerência conceitual, capacidade de adaptação normativa e compromisso permanente com a segurança técnica e jurídica da sociedade brasileira.

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5G Standalone: entre o discurso da inovação e os desafios reais

5G

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O artigo publicado pela Revista Fórum em 16 de janeiro de 2026, sob o título “O fim do 4G? A tecnologia 5G Standalone prepara o mercado para serviços digitais de alta performance”, traz ao debate público um tema central para o futuro das telecomunicações. Ao tratar da consolidação do 5G Standalone, o texto cumpre um papel relevante de divulgação em um momento de transição estrutural das redes móveis, ainda que, como é natural nesse tipo de abordagem, simplifique aspectos que, do ponto de vista técnico, são decisivos.

Quando essa discussão é analisada sob a ótica da engenharia elétrica e das telecomunicações, torna-se evidente que o 5G não se sustenta apenas em novos equipamentos ou em promessas genéricas de maior velocidade. A sua implantação depende, essencialmente, de planejamento de rede, medições em campo, como os drive tests, e processos contínuos de otimização, sem os quais não há como assegurar desempenho, confiabilidade e qualidade de serviço em ambientes urbanos complexos e heterogêneos.

Sob o aspecto técnico, é inegável que o principal destaque do 5G Standalone reside na capacidade de operar como banda larga móvel de altíssima performance, com taxas da ordem de 1 Gbps e latências inferiores a 1 ms em cenários devidamente planejados. Não se trata apenas de um avanço incremental em relação ao 4G, mas de uma mudança qualitativa que viabiliza aplicações até então inviáveis em redes móveis convencionais.

Esse ponto pode ser compreendido por meio de um exemplo simples de gestão remota de veículos autônomos em tempo real. Considere o acionamento remoto do sistema de frenagem de um veículo em deslocamento a 72 km/h. Em uma rede 4G, cuja latência típica situa-se na ordem de 100 ms, o comando percorre a rede em tempo suficiente para que o veículo avance cerca de 2 m antes que a resposta efetiva ocorra. Em um cenário de 5G Standalone, com latência inferior a 1 ms, esse deslocamento residual se reduz para aproximadamente 2 cm. A diferença é expressiva e evidencia por que, em aplicações críticas, milissegundos não constituem um detalhe técnico, mas um requisito funcional diretamente associado à segurança e à confiabilidade do sistema.

É importante destacar, contudo, que latências ultrabaixas não são automáticas nem universais. Elas dependem de uma arquitetura ponta a ponta adequada, da proximidade do processamento, muitas vezes viabilizada por edge computing, além da correta configuração da rede de acesso e de transporte. Em cenários reais, ainda há variabilidade, o que reforça a necessidade de engenharia rigorosa e de otimização permanente.

Do ponto de vista do rádio, o 5G enfrenta desafios clássicos de propagação, agora potencializados pelo uso de frequências mais elevadas e por ambientes urbanos densos. Fenômenos como desvanecimento, sombreamento, multipercurso e interferência impactam diretamente a qualidade do enlace, sobretudo em cenários de alta mobilidade e elevada concentração de usuários. Esses efeitos ajudam a explicar a percepção de instabilidade relatada por parte dos usuários durante a fase inicial de implantação da rede. A resposta técnica a esses desafios está incorporada na própria arquitetura do 5G, por meio do uso de MIMO massivo e de técnicas avançadas de beamforming, que permitem direcionar a energia do sinal de forma dinâmica e adaptativa, concentrando potência onde o usuário se encontra e reduzindo interferências indesejadas.

Do ponto de vista técnico-normativo, o 5G foi concebido desde a sua origem para atender três classes centrais de serviço, definidas internacionalmente pela ITU (The International Telecommunication Union). O mMTC (massive Machine Type Communications) é voltado à comunicação massiva entre máquinas e dispositivos de Internet das Coisas. O eMBB (enhanced Mobile Broadband) consolida o 5G como banda larga móvel avançada, com elevadas taxas de transmissão de dados. Já o URLLC (Ultra-Reliable Low Latency Communications) é direcionado a aplicações de tempo real e missão crítica, que exigem latência ultrabaixa e altíssima confiabilidade.

Merece registro positivo a estratégia de escolha das faixas de frequência adotada para o 5G no Brasil, que revela equilíbrio técnico entre capacidade, cobertura e viabilidade de implantação. Em especial, a faixa de 3,5 GHz destaca-se como o verdadeiro pilar do 5G brasileiro, por situar-se no início da faixa de SHF (Super High Frequency), permitindo larguras de banda compatíveis com os requisitos do 5G sem abrir mão de um comportamento de propagação ainda adequado ao ambiente urbano.

É compreensível, portanto, que a implantação do 5G no Brasil venha acompanhada de reclamações por parte dos usuários. Esses problemas não decorrem de falhas conceituais da tecnologia, mas da convivência com redes legadas, da necessidade progressiva de densificação e da complexidade própria da engenharia de RF em frequências mais elevadas.

No 5G, especialmente nas faixas de 3,5 GHz e 26 GHz, por se situarem na faixa de SHF, a Estação Transmissora de Radiocomunicação assume caráter ainda mais estratégico. Nessas frequências, a área de cobertura por estação é naturalmente menor, o que impõe maior densidade de sites no ambiente urbano. Sem a implantação adequada dessas estações, não há como expandir cobertura, aumentar capacidade ou reduzir latência.

É justamente nesse ponto que se estabelece a relação direta entre as ETRs e as legislações municipais. Quando normas locais criam condicionantes excessivos ou burocracia desproporcional, a infraestrutura deixa de acompanhar as metas regulatórias e técnicas do 5G.

A ANATEL atuou de forma preventiva desde 2021, encaminhando Carta Aberta às Autoridades Municipais Brasileiras e disponibilizando Minuta de Projeto de Lei Municipal para orientar a instalação de infraestrutura de telecomunicações, evidenciando esforço técnico e institucional antecipado.

Do ponto de vista do planejamento, a relação entre CAP (Coverage Area Probability) e margem demonstra que não existe cobertura técnica absoluta. CAP é uma métrica estatística e não determinística, e a busca por CAP igual a 100% é fisicamente e matematicamente inviável, levando a custos excessivos e ineficiência de rede. O papel da engenharia é ajustar requisitos, e não prometer impossibilidades.

Em síntese, o 5G Standalone não representa o fim do 4G, mas a abertura de uma nova etapa das telecomunicações, mais complexa do ponto de vista técnico e mais dependente de coordenação institucional. As reclamações dos usuários refletem desafios reais de implantação, não a inviabilidade da tecnologia. Em aplicações críticas, milissegundos fazem diferença concreta, o que recoloca a engenharia, o planejamento e a segurança jurídica no centro do debate sobre o futuro das redes móveis no Brasil. Mas afinal, de quem é a responsabilidade pelas reclamações que chegam à ANATEL? Da Agência, que atuou de forma preventiva e com antecedência, orientando as prestadoras, a sociedade e as prefeituras, e que dispõe de corpo técnico especializado e engenharia altamente qualificada? Das prestadoras do Serviço Móvel Pessoal, que cumprem requisitos técnicos e regulatórios tanto da ANATEL quanto do Sistema CONFEA/CREA, assegurando a qualificação da empresa e de sua equipe de engenharia legalmente habilitada? Ou das próprias prefeituras, que estabelecem condicionantes à implantação da infraestrutura necessária ao 5G, muitas vezes sem dispor de estrutura técnica especializada em telecomunicações para avaliar adequadamente seus impactos e exigências? Ou, simplesmente, não há culpados, e parte das insatisfações decorre do fato de que o nível de exigência projetado por alguns usuários é tecnicamente inalcançável, uma vez que não existe, nem nunca existirá, uma rede móvel com CAP igual a 100%?

Autor
Eng. Eletric. Rogerio Moreira Lima
Diretor de Inovação e Diretor Estadual MA da ABTELECOM
Especialista da ABEE Nacional
Embaixador da ABRACOPEL
Titular da Cadeira nº 54 e Diretor de Relações Institucionais da Academia Maranhense de Ciências
1º Secretário da ABEE-MA
Membro do SENGE-MA e do CEM
Professor da UEMA