Telecomunicações e Engenharia na Era da Transformação Digital

telecomunicacoes e engenharia

A engenharia por trás da conectividade, da inovação e do desenvolvimento tecnológico

Ao mesmo tempo em que sustentam a transformação digital, a inovação e a integração da sociedade, as telecomunicações figuram entre os campos mais complexos da engenharia moderna. A afirmação de que “telecom é difícil”, longe de ser um exagero, reflete a elevada densidade técnica, matemática e regulatória que caracteriza a área. Afinal, como ocorre em todas as modalidades da engenharia, a Engenharia de Telecomunicações exige domínio aprofundado de matemática e física, que constituem a base para a compreensão e o projeto dos sistemas de comunicação. Compreender essa complexidade é fundamental para entender por que a Engenharia de Telecomunicações ocupa papel estratégico no avanço tecnológico do Brasil.

Do ponto de vista legal e conceitual, a própria definição de telecomunicações já evidencia essa abrangência técnica. Nos termos do art. 60 da Lei nº 9.472/1997, telecomunicação é a transmissão, emissão ou recepção, por fio, radioeletricidade, meios ópticos ou qualquer outro processo eletromagnético, de símbolos, caracteres, sinais, escritos, imagens, sons ou informações de qualquer natureza. Essa definição deixa claro que as telecomunicações envolvem, de forma indissociável, sistemas físicos, fenômenos eletromagnéticos, processamento de sinais e redes complexas de transmissão de informação.

Fica evidente, portanto, que as telecomunicações são, em sua essência, engenharia aplicada, muito antes mesmo de serem expressamente reconhecidas como atividade característica da engenharia pelo art. 1º, alínea “b”, da Lei nº 5.194/1966. Já em 18 de agosto de 1952, a Resolução CONFEA nº 78 atribuía as atividades de telecomunicações aos engenheiros eletricistas e mecânicos-eletricistas, demonstrando o pioneirismo do Sistema CONFEA na regulamentação técnica do setor. À época, o próprio Conselho já definia serviço de telecomunicações como qualquer emissão, transmissão ou recepção de sinais, imagens ou sons de qualquer natureza, utilizando princípios elétricos, sônicos, ópticos ou outros quaisquer, por meio de qualquer sistema ou meio de propagação. Esse histórico normativo evidencia que as telecomunicações sempre foram tratadas, desde sua origem regulatória, como um campo eminentemente técnico e científico, indissociável da engenharia, muito antes da edição da Lei Geral de Telecomunicações, em 1997.

Esse reconhecimento inicial não permaneceu estático. À medida que os sistemas de comunicação se tornaram mais complexos, incorporando técnicas avançadas de modulação, teoria da informação, processamento digital de sinais, redes e sistemas de rádio cada vez mais sofisticados, o campo das telecomunicações passou por um processo natural de especialização profissional. Esse movimento conduziu, primeiro, à consolidação do engenheiro de comunicação e, posteriormente, ao reconhecimento formal do engenheiro de telecomunicações como campo específico da engenharia, com formação própria, currículo dedicado e competências técnicas altamente especializadas.

A dificuldade da Engenharia de Telecomunicações não decorre apenas do volume de conteúdos ou do rigor acadêmico. Ela está profundamente associada à fragilidade da formação matemática básica com a qual muitos estudantes chegam ao ensino superior. O curso pressupõe domínio consistente, ainda no ensino médio, de funções, trigonometria, geometria analítica, vetores e fundamentos da física clássica, conteúdos que não são retomados de forma introdutória, mas imediatamente aprofundados e utilizados como linguagem básica para disciplinas centrais da formação.

Esse diagnóstico é empírico. O Brasil ocupou a 65ª posição em Matemática no PISA 2023, entre 81 países avaliados, evidenciando um descaso histórico com o ensino de base e com a formação científica. Esse resultado ajuda a explicar por que áreas intensivas em matemática, física e raciocínio abstrato, como a Engenharia de Telecomunicações, são frequentemente percebidas como excessivamente difíceis. Em contrapartida, países que valorizam a engenharia, a ciência e a pesquisa estruturam seu desenvolvimento sobre projetos tecnicamente sólidos, planejamento eficiente e execução responsável.

A partir dessa base fragilizada, o estudante passa a lidar com matemática de nível superior, como cálculo diferencial e integral, álgebra linear, equações diferenciais, análise complexa, séries e transformadas de Fourier, além de processos estocásticos. Quando essa base não está devidamente consolidada, a dificuldade enfrentada não é circunstancial ou pontual, mas estrutural, comprometendo de forma contínua o acompanhamento e a assimilação dos conteúdos próprios da Engenharia de Telecomunicações.

Na Engenharia de Telecomunicações, esses instrumentos matemáticos constituem o núcleo da formação técnica. A análise espectral de sinais exige domínio da transformada de Fourier, essencial para a caracterização da densidade espectral de potência, da largura de banda ocupada, da eficiência espectral e do impacto do ruído e das interferências sobre o desempenho dos sistemas de comunicação.

Essa base matemática se materializa diretamente em tecnologias amplamente utilizadas. Um exemplo emblemático é o OFDM, técnica central em sistemas como LTE, 5G e Wi-Fi. O OFDM é, essencialmente, uma aplicação direta da transformada discreta de Fourier, implementada por meio de algoritmos de FFT e IFFT, permitindo a decomposição do sinal em múltiplas subportadoras ortogonais, com elevada eficiência espectral e maior robustez frente aos efeitos do multipercurso.

Outro eixo estruturante da formação é o estudo da propagação de ondas eletromagnéticas. Em sistemas sem fio, a propagação ocorre no espaço livre ou em meios atmosféricos, envolvendo fenômenos como atenuação, reflexão, refração, difração, espalhamento, multipercurso e interferência. O projeto de enlaces e redes móveis baseia-se em modelos consolidados internacionalmente, estabelecidos em recomendações da ITU-R, como as Recomendações P.525, P.526 e P.1411, amplamente utilizadas no planejamento de cobertura e no controle de interferências.

Nos meios guiados metálicos, como pares trançados, cabos coaxiais e guias de onda, a propagação também é eletromagnética, sendo descrita pelas equações de Maxwell e pela teoria de linhas de transmissão, que modela a distribuição espacial dos campos, a impedância característica e os fenômenos de atenuação e reflexão. A fibra óptica, por sua vez, constitui um guia de onda dielétrico, no qual a propagação ocorre na faixa óptica do espectro por reflexão total interna, exigindo igualmente a modelagem a partir das equações de Maxwell, com a aplicação rigorosa das condições de contorno eletromagnéticas na interface entre núcleo e casca.

A coexistência de múltiplos modos de propagação pode dar origem à dispersão intermodal, que, somada à dispersão cromática, impõe limites físicos à taxa de símbolos e ao alcance dos sistemas de comunicação óptica, influenciando diretamente o projeto de enlaces, a escolha do tipo de fibra e as margens de desempenho dos sistemas.

No campo das redes ópticas de acesso, esses fenômenos físicos são tratados de forma normatizada pelas recomendações da ITU-T. A Recomendação ITU-T G.984, que define o padrão GPON, estabelece parâmetros físicos, ópticos e de transmissão para redes FTTH, garantindo interoperabilidade entre fabricantes, compartilhamento eficiente da infraestrutura e altas taxas de transmissão.

Nas comunicações sem fio, o planejamento de redes móveis envolve ainda medições em campo por meio de drive tests, etapa essencial para validar modelos teóricos, ajustar parâmetros de rede e garantir qualidade de serviço. O canal rádio móvel é modelado como um processo estocástico estacionário no sentido amplo, com espalhadores descorrelacionados, no qual a resposta impulsiva apresenta variações estatísticas no tempo e na frequência em decorrência do multipercurso e da mobilidade. Essa dispersão temporal e espectral constitui a origem física da interferência intersimbólica, impondo limites práticos à taxa de símbolos e, consequentemente, à taxa de transmissão, analisados à luz do critério de Nyquist e da teoria da capacidade de canal.

Importa destacar que as telecomunicações envolvem riscos relevantes para trabalhadores e para a população em geral. A atuação em infraestruturas compartilhadas com o Sistema Elétrico de Potência expõe profissionais a riscos elétricos tratados pela NR-10, os trabalhos em altura enquadram-se na NR-35 e a exposição à radiação não ionizante é tratada pela NR-15, Anexo 7, reforçando a necessidade de responsabilidade técnica e de Anotação de Responsabilidade Técnica.

Merece destaque especial a revisão da NR-10, que solucionou um impasse histórico envolvendo os trabalhadores de telecomunicações que atuam em infraestruturas compartilhadas com o Sistema Elétrico de Potência. A norma passou a reconhecer formalmente que as atividades de telecomunicações expõem os profissionais a riscos elétricos por proximidade, especialmente em postes e estruturas compartilhadas, sem equipará-los às atividades típicas de eletricistas de linha viva. Para esse cenário específico, a nova NR-10 instituiu o Treinamento de Segurança Específico para Compartilhamento de Infraestrutura do Sistema Elétrico de Potência, com carga horária mínima de 40 horas, direcionado às particularidades das telecomunicações. Esse avanço normativo amplia a segurança jurídica, assegura qualificação adequada e reforça a necessidade de planejamento técnico, supervisão por engenheiro legalmente habilitado e formalização da responsabilidade técnica por meio da Anotação de Responsabilidade Técnica nos serviços de telecomunicações realizados em ambientes com risco elétrico.

No plano dos serviços prestados à sociedade, a Engenharia de Telecomunicações se materializa na oferta de banda larga, telefonia móvel e TV por assinatura, serviços essenciais à transformação digital, à inovação, à economia baseada em dados e à inclusão social.

Em suma, não existe transformação digital sem telecomunicações, nem avanço tecnológico sem engenharia. A complexidade técnica da Engenharia de Telecomunicações não constitui um entrave, mas a base que sustenta a conectividade, a inovação e o desenvolvimento tecnológico do Brasil.

Autor
Engenheiro Eletricista Rogerio Moreira Lima Silva
Diretor de Inovação e Diretor Estadual no Maranhão da ABTELECOM, Especialista da ABEE Nacional e 1º Secretário da ABEE-MA, Embaixador da ABRACOPEL, membro do SENGE-MA e do CEM, Diretor de Relações Institucionais da Academia Maranhense de Ciências e professor da Universidade Estadual do Maranhão.

0 respostas

Deixe uma resposta

Want to join the discussion?
Feel free to contribute!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *