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5G Standalone: entre o discurso da inovação e os desafios reais

5G

O artigo publicado pela Revista Fórum em 16 de janeiro de 2026, sob o título “O fim do 4G? A tecnologia 5G Standalone prepara o mercado para serviços digitais de alta performance”, traz ao debate público um tema central para o futuro das telecomunicações. Ao tratar da consolidação do 5G Standalone, o texto cumpre um papel relevante de divulgação em um momento de transição estrutural das redes móveis, ainda que, como é natural nesse tipo de abordagem, simplifique aspectos que, do ponto de vista técnico, são decisivos.

Quando essa discussão é analisada sob a ótica da engenharia elétrica e das telecomunicações, torna-se evidente que o 5G não se sustenta apenas em novos equipamentos ou em promessas genéricas de maior velocidade. A sua implantação depende, essencialmente, de planejamento de rede, medições em campo, como os drive tests, e processos contínuos de otimização, sem os quais não há como assegurar desempenho, confiabilidade e qualidade de serviço em ambientes urbanos complexos e heterogêneos.

Sob o aspecto técnico, é inegável que o principal destaque do 5G Standalone reside na capacidade de operar como banda larga móvel de altíssima performance, com taxas da ordem de 1 Gbps e latências inferiores a 1 ms em cenários devidamente planejados. Não se trata apenas de um avanço incremental em relação ao 4G, mas de uma mudança qualitativa que viabiliza aplicações até então inviáveis em redes móveis convencionais.

Esse ponto pode ser compreendido por meio de um exemplo simples de gestão remota de veículos autônomos em tempo real. Considere o acionamento remoto do sistema de frenagem de um veículo em deslocamento a 72 km/h. Em uma rede 4G, cuja latência típica situa-se na ordem de 100 ms, o comando percorre a rede em tempo suficiente para que o veículo avance cerca de 2 m antes que a resposta efetiva ocorra. Em um cenário de 5G Standalone, com latência inferior a 1 ms, esse deslocamento residual se reduz para aproximadamente 2 cm. A diferença é expressiva e evidencia por que, em aplicações críticas, milissegundos não constituem um detalhe técnico, mas um requisito funcional diretamente associado à segurança e à confiabilidade do sistema.

É importante destacar, contudo, que latências ultrabaixas não são automáticas nem universais. Elas dependem de uma arquitetura ponta a ponta adequada, da proximidade do processamento, muitas vezes viabilizada por edge computing, além da correta configuração da rede de acesso e de transporte. Em cenários reais, ainda há variabilidade, o que reforça a necessidade de engenharia rigorosa e de otimização permanente.

Do ponto de vista do rádio, o 5G enfrenta desafios clássicos de propagação, agora potencializados pelo uso de frequências mais elevadas e por ambientes urbanos densos. Fenômenos como desvanecimento, sombreamento, multipercurso e interferência impactam diretamente a qualidade do enlace, sobretudo em cenários de alta mobilidade e elevada concentração de usuários. Esses efeitos ajudam a explicar a percepção de instabilidade relatada por parte dos usuários durante a fase inicial de implantação da rede. A resposta técnica a esses desafios está incorporada na própria arquitetura do 5G, por meio do uso de MIMO massivo e de técnicas avançadas de beamforming, que permitem direcionar a energia do sinal de forma dinâmica e adaptativa, concentrando potência onde o usuário se encontra e reduzindo interferências indesejadas.

Do ponto de vista técnico-normativo, o 5G foi concebido desde a sua origem para atender três classes centrais de serviço, definidas internacionalmente pela ITU (The International Telecommunication Union). O mMTC (massive Machine Type Communications) é voltado à comunicação massiva entre máquinas e dispositivos de Internet das Coisas. O eMBB (enhanced Mobile Broadband) consolida o 5G como banda larga móvel avançada, com elevadas taxas de transmissão de dados. Já o URLLC (Ultra-Reliable Low Latency Communications) é direcionado a aplicações de tempo real e missão crítica, que exigem latência ultrabaixa e altíssima confiabilidade.

Merece registro positivo a estratégia de escolha das faixas de frequência adotada para o 5G no Brasil, que revela equilíbrio técnico entre capacidade, cobertura e viabilidade de implantação. Em especial, a faixa de 3,5 GHz destaca-se como o verdadeiro pilar do 5G brasileiro, por situar-se no início da faixa de SHF (Super High Frequency), permitindo larguras de banda compatíveis com os requisitos do 5G sem abrir mão de um comportamento de propagação ainda adequado ao ambiente urbano.

É compreensível, portanto, que a implantação do 5G no Brasil venha acompanhada de reclamações por parte dos usuários. Esses problemas não decorrem de falhas conceituais da tecnologia, mas da convivência com redes legadas, da necessidade progressiva de densificação e da complexidade própria da engenharia de RF em frequências mais elevadas.

No 5G, especialmente nas faixas de 3,5 GHz e 26 GHz, por se situarem na faixa de SHF, a Estação Transmissora de Radiocomunicação assume caráter ainda mais estratégico. Nessas frequências, a área de cobertura por estação é naturalmente menor, o que impõe maior densidade de sites no ambiente urbano. Sem a implantação adequada dessas estações, não há como expandir cobertura, aumentar capacidade ou reduzir latência.

É justamente nesse ponto que se estabelece a relação direta entre as ETRs e as legislações municipais. Quando normas locais criam condicionantes excessivos ou burocracia desproporcional, a infraestrutura deixa de acompanhar as metas regulatórias e técnicas do 5G.

A ANATEL atuou de forma preventiva desde 2021, encaminhando Carta Aberta às Autoridades Municipais Brasileiras e disponibilizando Minuta de Projeto de Lei Municipal para orientar a instalação de infraestrutura de telecomunicações, evidenciando esforço técnico e institucional antecipado.

Do ponto de vista do planejamento, a relação entre CAP (Coverage Area Probability) e margem demonstra que não existe cobertura técnica absoluta. CAP é uma métrica estatística e não determinística, e a busca por CAP igual a 100% é fisicamente e matematicamente inviável, levando a custos excessivos e ineficiência de rede. O papel da engenharia é ajustar requisitos, e não prometer impossibilidades.

Em síntese, o 5G Standalone não representa o fim do 4G, mas a abertura de uma nova etapa das telecomunicações, mais complexa do ponto de vista técnico e mais dependente de coordenação institucional. As reclamações dos usuários refletem desafios reais de implantação, não a inviabilidade da tecnologia. Em aplicações críticas, milissegundos fazem diferença concreta, o que recoloca a engenharia, o planejamento e a segurança jurídica no centro do debate sobre o futuro das redes móveis no Brasil. Mas afinal, de quem é a responsabilidade pelas reclamações que chegam à ANATEL? Da Agência, que atuou de forma preventiva e com antecedência, orientando as prestadoras, a sociedade e as prefeituras, e que dispõe de corpo técnico especializado e engenharia altamente qualificada? Das prestadoras do Serviço Móvel Pessoal, que cumprem requisitos técnicos e regulatórios tanto da ANATEL quanto do Sistema CONFEA/CREA, assegurando a qualificação da empresa e de sua equipe de engenharia legalmente habilitada? Ou das próprias prefeituras, que estabelecem condicionantes à implantação da infraestrutura necessária ao 5G, muitas vezes sem dispor de estrutura técnica especializada em telecomunicações para avaliar adequadamente seus impactos e exigências? Ou, simplesmente, não há culpados, e parte das insatisfações decorre do fato de que o nível de exigência projetado por alguns usuários é tecnicamente inalcançável, uma vez que não existe, nem nunca existirá, uma rede móvel com CAP igual a 100%?

Autor
Eng. Eletric. Rogerio Moreira Lima
Diretor de Inovação e Diretor Estadual MA da ABTELECOM
Especialista da ABEE Nacional
Embaixador da ABRACOPEL
Titular da Cadeira nº 54 e Diretor de Relações Institucionais da Academia Maranhense de Ciências
1º Secretário da ABEE-MA
Membro do SENGE-MA e do CEM
Professor da UEMA

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