Índia se prepara para o 6G
No final de dezembro de 2025, a Índia deu um passo decisivo rumo ao futuro das telecomunicações. O National Frequency Allocation Plan 2025 liberou a faixa de 6 GHz, expandindo a capacidade do 5G Advanced e preparando o país para o 6G, redes móveis mais rápidas, confiáveis e com menor latência. Essa medida mostra como decisões técnicas bem fundamentadas antecipam e moldam o futuro da comunicação global.
Curiosamente, três meses antes, em 26 de setembro de 2025, durante o INOVAtic, evento promovido pelo Tele.Síntese em Guarulhos (SP), o engenheiro eletricista Vinicius Caram, superintendente de Outorga e Recursos à Prestação da Anatel, já defendia a destinação de parte da frequência de 6 GHz para a telefonia móvel, em vez de cedê-la completamente ao uso do WiFi. Caram sustentou a opção de compartilhamento da faixa citando condições operacionais do espectro, a viabilidade da tecnologia 6G no Brasil e o fato de que os provedores, apesar de terem a frequência disponível, ainda não oferecem planos que a utilizem nas redes WiFi 6E e 7. “Quando a gente fala dessa frequência, a minha bandeira é 6 GHz para permitir o 6G, porque não temos espectro abaixo de 6 GHz com portadora de 200 MHz. Não tem. O Brasil não pode ficar sem 6G e não tenho outro espectro que não seja o de 6 GHz”, afirmou Caram.
Para quem não conhece, Vinicius Caram é Engenheiro Eletricista, Mestre em Engenharia de Telecomunicações e especialista em Gestão de Telecomunicações pela UnB, especialista em Governança e Controle da Regulação pela ENAP, e possui certificação em Liderança em IA pela Harvard Kennedy School. Atua na Anatel desde 2011, com experiência em regulamentação, infraestrutura e qualidade, e ocupou cargos estratégicos, como Vice-Presidente da Comissão de Licitação do 5G, Coordenador da Comissão Brasileira de Comunicações (CBC2), além de integrar grupos de trabalho relacionados à TV 3.0, uso do espectro com as Forças Armadas e Conselho Nacional de Combate à Pirataria.
Um detalhe interessante sobre o engenheiro eletricista Vinicius Caram é que sua dissertação de mestrado foi intitulada “Gerenciamento e Otimização do Espectro de Frequências para Rede Móvel com Múltiplas Tecnologias em mesma Banda”. Coincidentemente, hoje ele ocupa o cargo de Superintendente de Outorga e Recursos à Prestação da ANATEL, função que exige exatamente o conhecimento especializado que sua pesquisa abordou. Essa conexão entre formação acadêmica e atuação profissional reforça a profundidade técnica de Caram e a segurança de suas decisões na gestão do espectro de frequências, garantindo que políticas de alocação de bandas e implementação de redes móveis estejam baseadas em conhecimento técnico consolidado. Não é à toa que a decisão tomada recentemente pela Índia sobre a faixa de 6 GHz referenda o posicionamento do engenheiro Caram, mesmo considerando que cada país tem suas especificidades na gestão do espectro nacional.
Importante destacar que os engenheiros eletricistas são profissionais devidamente habilitados para planejamento, estudos, projetos, análises, avaliações, vistorias, perícias, pareceres e divulgação técnica; ensino, pesquisas, experimentação e ensaios; produção técnica especializada; fiscalização; direção e execução de obras e serviços técnicos referentes às telecomunicações, conforme arts. 1º ‘b’, 7º e 27 ‘f’ da Lei 5.194/1966 e art. 2º da Resolução CONFEA nº 1156/2025. Isso demonstra a importância de profissionais qualificados como o engenheiro Caram, pois ele fundamenta suas decisões em conhecimento técnico especializado, garantindo que políticas de espectro e implementação de redes móveis estejam baseadas em conhecimento especializado e padrões técnicos reconhecidos.
Para que o leitor entenda melhor a importância do espectro, podemos pensar em exemplos simples: 10% de 900 MHz é 90 MHz, 10% de 3,5 GHz é 350 MHz, 10% de 6 GHz é 600 MHz e 10% de 26,5 GHz é 2,65 GHz. Quanto maior a frequência, maior a largura de banda disponível, ou seja, mais informações podem ser transmitidas ao mesmo tempo.
Segundo a Lei de Shannon-Hartley, a capacidade de um canal depende da largura de banda e da relação sinal-ruído. A largura de banda tem efeito diretamente proporcional, enquanto a relação sinal-ruído age de forma logarítmica: aumentar um sinal fraco melhora muito a capacidade, mas aumentar um sinal já forte gera ganhos menores. Por isso, para melhorar a transmissão, ampliar a largura de banda é mais eficiente do que aumentar apenas a potência do sinal (Shannon, 1948). Hoje, técnicas avançadas de codificação e modulação de alta eficiência espectral permitem aumentar a taxa de dados sem ampliar a largura de banda ou a relação sinal-ruído, embora existam limites físicos.
Sinais em frequências mais altas enfrentam desafios de propagação, com maior dificuldade para contornar obstáculos, exigindo antenas e torres planejadas com precisão. Frequências próximas de 3 GHz ainda permitem cobertura maior e possibilitam ponto-a-área, razão pela qual o Brasil adotou 3,5 GHz para o 5G. Já a faixa de 6 GHz é essencial para 5G Advanced e 6G, oferecendo mais capacidade, suportando múltiplos usuários simultaneamente e permitindo serviços de altíssima velocidade, embora exija infraestrutura planejada com precisão.
O uso de tecnologias como Massive MIMO, beamforming, modulação adaptativa e codificação eficiente torna possível direcionar o sinal com precisão, reduzir interferências e atender múltiplos usuários simultaneamente. Esses sistemas envolvem álgebra linear aplicada a matrizes de sinais complexos, transformada de Fourier para análise espectral e processos estocásticos, que consideram ruído elétrico, multipercurso e variação do canal rádio móvel. Esse conhecimento permite criar redes escaláveis, confiáveis e de alta capacidade.
Essa complexidade evidencia que a engenharia vai muito além da construção civil. A engenharia de telecomunicações é o pilar da comunicação moderna, impactando serviços, indústria e o dia a dia das pessoas, além de abrir caminho para inovações tecnológicas globais.
Para que o Brasil aproveite plenamente essas oportunidades, é fundamental investir no ensino de matemática desde o ensino fundamental e médio, preparando futuros engenheiros, reduzindo evasão e diminuindo o tempo médio de formatura. O PISA 2022 apontou que 70% dos estudantes de 15 anos têm dificuldades com problemas matemáticos simples, e o PISA 2023 mostrou média de apenas 379 pontos em Matemática, bem abaixo da média OCDE de 472, evidenciando lacunas profundas no aprendizado desde cedo (BBC, 2022; BBC, 2023).
Referências:
Shannon, C. E. A Mathematical Theory of Communication. Bell System Technical Journal, v. 27, p. 379‑423, 623‑656, 1948.
BBC. Até alunos mais ricos no Brasil estão abaixo da média global em Matemática, aponta PISA. 2022. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cv2zx819rg4o
. Acesso em: 01 jan. 2026.
BBC. Resultados do PISA 2023: Brasil obtém 379 pontos em Matemática. 2023. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cv2zx819rg4o
. Acesso em: 01 jan. 2026.
FAPESP. Recent trends in engineering education in Brazil. 2022. Disponível em: https://revistapesquisa.fapesp.br/en/recent-trends-in-engineering-education/?utm_source=chatgpt.com
. Acesso em: 01 jan. 2026.
DEPARTMENT OF TELECOMMUNICATIONS. National Frequency Allocation Plan 2025. Nova Deli: Government of India, 30 dez. 2025. Disponível em: https://www.theweek.in/news/sci-tech/2025/12/30/india-gets-ready-for-6g-network-2026-nfap-2025-in-effect-on-dec-30.html
. Acesso em: 01 jan. 2026.
ECONOMIC TIMES. India earmarks upper 6GHz band for 5G & 6G mobile services in NFAP‑2025. Mumbai, 30 dez. 2025. Disponível em: https://telecom.economictimes.indiatimes.com/news/india-earmarks-upper-6ghz-band-for-5g-6g-mobile-services-in-nfap-2025/126250214
. Acesso em: 01 jan. 2026.
Tele.sintese. “Brasil não tem outro espectro para o 6G a não ser os 6 GHz”, diz Caram. Portal de Telecom, Internet e ITC. Disponível em: https://telesintese.com.br/brasil-nao-tem-outro-espectro-para-o-6g-a-nao-ser-os-6-ghz-diz-caram/
. Acesso em: 01 jan. 2026.
Anatel. Superintendência de Outorga e Recursos à Prestação – Vinicius Oliveira Caram Guimarães. Disponível em: https://www.gov.br/anatel/pt-br/composicao/superintendencias/superintendencia-de-outorga-e-recursos-a-prestacao/vinicius-oliveira-caram-guimaraes
. Acesso em: 01 jan. 2026.
CNPq. Vinícius Oliveira Caram Guimarães. Endereço para acessar este CV: http://lattes.cnpq.br/4898086289455446
. Acesso em: 01 jan. 2026.
Autor:
Eng. Eletric. Rogerio Moreira Lima
Diretor de Inovação e Estadual MA da ABTELECOM
Especialista da ABEE Nacional
Embaixador da ABRACOPEL
Diretor de Relações Institucionais da Academia Maranhense de Ciências
1° secretário da ABEE-MA
Membro do SENGE-MA e do CEM
Professor da UEMA



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