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TRAFEGO NOS HORÁRIOS DE PICO

Por Eng. José Roberto de Souza Pinto

Um título geral para muitas aplicações na qualidade de vida de um cidadão.

Pode ser também uma descrição óbvia para o cidadão que vive esta situação no seu dia a dia e porque não para os estudiosos da mobilidade urbana.

A questão envolve várias e diversificadas áreas de interesse e eu pretendo abordar este conjunto, baseado na experiência pessoal de gestão em Empresa Pública, Empresa Privada e como Consultor em home office e regime hibrido a mais de 15 anos.

Com esta base pretendo explorar o tema numa visão de planejamento e projetos, operação e gerencia destas vias onde este trafego circula.

Nas telecomunicações, por exemplo um dos grandes problemas é o dimensionamento das suas redes de suporte que tem que ser planejado para atender ao volume de trafego no momento de pico.

O que acontece na realidade em vários setores da atividade econômica ou institucional é que você tem os momentos de pico e os de ociosidade.

Em resumo você realiza investimentos que são pouco utilizados nos momentos de ociosidade ou baixo volume de trafego e não atende a demanda com qualidade de serviço nos momentos de pico.

O que se procura fazer nos modelos é otimizar esta distribuição de trafego ao longo do dia, com incentivos.

Alguns devem lembrar das tarifas telefônicas a partir das 20:00 horas e a partir da meia noite até às 6:00 da manhã. Essa era uma das alternativas para redistribuir o trafego telefônico reduzindo os volumes nos horários comerciais das 8:00 às 18:00 horas.

Sem dúvida são adotados modelos muito mais complexos que dividiam este trafego em diversas rotas até por uma questão de segurança do sistema e do serviço prestado ao consumidor.

Com o advento da total digitalização, nas fontes de informação seja da voz, nos textos e nas imagens e vídeo, transformando todo esse conjunto em bits, este trafego que agora é só dados é transportado por inúmeras vias ou rotas até o seu destino final.

Uma particularidade que cabe observar é que com a digitalização e a capacidade das redes, o efeito distância nos preços dos serviços deixou de existir.

A segurança e continuidade dos serviços é obtida em função das alternativas de encaminhamento e gestão deste trafego, sendo de extrema importância no caso de alguma eventual falha em algum dos seus segmentos.

Considero também, que nem tudo é perfeito neste setor, porque existem situações de congestionamentos provocados por sites e aplicativos com número de acessos incompatíveis com a demanda em certos períodos, mas os centros de gerência de rede, tem sempre soluções para bloqueios ou outras medidas que evitam a propagação dessas falhas e do congestionamento.

Faço esta abordagem com referência as Telecomunicações como uma introdução, porque o meu foco está concentrado na questão dos volumes de trafego de pessoas que transitam nos horários de pico nos grandes centros urbanos e áreas metropolitanas.

Na realidade meu objetivo é revisitar mais uma vez a questão da mobilidade e da qualidade de vida que deve ser um objetivo a ser alcançado em qualquer projeto de cidade ou urbanização.

Particularmente tenho uma certa aversão ao transporte público de longa distância, seja de trens suburbanos, BRTs que com uma “via sem interrupção” poderiam reduzir o tempo de deslocamento e algumas linhas longas de metrô. Ao que tudo indica as experiências que temos não são as melhores, em termos do custo da solução para um transporte que deveria ser de qualidade.

Estas soluções poderiam ser de grande valia, se tivéssemos no devido tempo, investido em uma malha de metrôs que cobrisse toda a área urbana das capitais dos Estados e outras cidades de grande porte no país e aí poderiam ter algumas extensões dessa malha para locais mais distantes.

Entretanto, como não foi feito, temos que conviver com essa situação que infelizmente é tratada com uma certa naturalidade, diria como algo normal para uma área metropolitana.

A questão central esbarra de novo nos horários de pico de trafego, onde os veículos estão lotados, sem conforto e os trabalhadores que estão nesses veículos estão sujeitos a todo tipo de bactérias e vírus que produzem doenças.

Estamos considerando os trabalhadores que saem ou retornam do trabalho e levam mais de duas ou três horas nesses trajetos. Temos adicionalmente uma questão natural de perda na produtividade e do aumento do custo de saúde pública.

Certamente estes meios de transporte não são dimensionados adequadamente para estes horários de pico para um transporte de qualidade e podem até estar ociosos em alguns períodos dia e certamente a noite.

Apesar de serem Concessões do Estado, que deveriam ter regras contratuais rígidas de prestação do serviço, não se percebe o cumprimento do mínimo da qualidade, até porque tem que ser viáveis e com tarifas possíveis de serem pagas pela população que as utiliza.

Num modelo de Estado Democrático, não se pode obrigar nada que não esteja específico em Lei. Entretanto alguns incentivos podem ser explorados no sentido de buscar soluções.

Tenho procurado explorar algumas linhas de ação que podem ser utilizadas até de forma conjunta e que visam reduzir o volume de trafego nestes horários já descritos.

As soluções com uso de tecnologia da informação e de comunicação na criação de centros de controle de trafego e ocorrências de acidentes, visam minimizar os problemas de interrupção de vias ou congestionamentos, mas sem rotas alternativas para desviar o trafego ficam limitadas a dar a informação.

O ideal seria ter rotas alternativas de vias que poderiam escoar o trafego de veículos, mas dependendo do perfil e relevo das cidades e das construções já existentes, este novo traçado urbano pode requer inúmeras obras, como tuneis e viadutos, isso sem entrar em mais detalhes. Certamente requerem grandes investimentos e custo elevado, levam tempo para construção e colocam em dúvida a sua viabilidade. Penso que mesmo assim devem ser realizados estudos para criar vias alternativas nas cidades.

Ter horários diferenciados para início e termino dos tradicionais horários de trabalho, para Empresas e outras Organizações ou mesmo maior flexibilidade dentro das Empresas, devidamente coordenada num plano de gestão municipal ou principalmente de uma área metropolitana seria um dos caminhos. Certamente um acordo difícil, porque envolve diversas Administrações Públicas e Empresas Privadas, mas necessário.

Outro caminho é evitar as construções de residências populares em locais distantes dos Centros onde não existem oportunidades de porte de empregos ou atividades, que possam gerar novas concentrações ou bairros, com todos os serviços disponíveis para a população, evitando o deslocamento por longas distâncias.

Digo isso, porque estas construções de residências são realizadas áreas de menor custo porque estão em locais distantes, consequentemente levam a necessidade de mais transporte coletivo de longa distância, gerando novos investimentos de baixa qualidade ou piorando a situação. Avaliar o custo total da solução me parece um melhor caminho.

A melhor solução é aproximar a residência e o trabalho e reduzir ao extremamente necessário o transporte público de longa distância.

Apesar de algumas iniciativas em andamento, um caminho que deve ser explorado com mais vigor é o de reutilização dos prédios nos centros urbanos onde se localizavam Empresas ou outras Organizações Públicas ou Privadas, transformando-os em prédios residenciais.

Esta observação não é uma novidade, pois nos grandes Centros, existem alguns prédios Públicos e Privados desocupados ou com baixa utilização, em função de vários fatores.

Um deles é a tecnologia com a redução do tamanho dos componentes e equipamentos e até da necessidade de pessoal nestes locais, que reduziu em muito a necessidade de áreas em prédios. Só como exemplo posso citar na área de telecomunicações os prédios com enormes áreas para centrais telefônicas, que ocupavam um ou mais andares, com pé direito de mais de 5 metros, são substituídos por pequenos grupos de roteadores que ocupam um decimo do espaço.

Entendo também que com a situação recente vivida da crise sanitária, decorrente da Pandemia do COVID e a consequente utilização de trabalho em home office, prédios ficaram vazios.

As Empresas repensaram um pouco melhor a questão de utilização de áreas para os seus colaboradores. A concepção do trabalho hibrido em casa e no escritório já é uma realidade. Podemos também adicionar o conceito de compartilhamento de recursos (coworking) e com isso certamente vamos ter muito mais áreas e prédios disponíveis.

Estes prédios se adaptados para residências, já tem a infraestrutura de água, esgotos, energia, comunicações e eventualmente até rede de gás e nas reformas podem ser instalados nos tetos sistemas de energia solar para reduzir o custo de energia para os moradores. Adiciona-se a utilização de algumas áreas que seriam destinadas a postos de saúde e escolas.

Reativar os centros urbanos para moradias deve ser uma prioridade, pois estaremos reduzindo o tempo de deslocamento e porque não dizer, contribuindo para reduzir o volume de trafego de veículos nos horários de pico, o consumo de combustível e a poluição urbana.

Como pode ser deduzido, não existe uma solução, mas um conjunto de medidas que se bem coordenadas e com os devidos incentivos podem alterar o cenário de baixa qualidade de vida do cidadão que trabalha e mora distante do seu trabalho.

Trata-se, portanto, de uma necessidade imperiosa a ser revisitada e explorada com mais detalhes para a sua realização, com seriedade, determinação, criatividade, conhecimentos técnicos e profissionais nas soluções.

Jose Roberto de Souza Pinto, Engenheiro de Sistemas Elétricos em 1971 na UFF com especialização em Telecomunicações e Mestre em Economia Empresarial em 2009 na UCAM com cursos de especialização no Brasil e no Exterior.
Experiência no setor de Telecomunicações adquirida em 34 anos na Embratel.
Após a privatização da EMBRATEL, se concentrou nas questões regulatórias até 2004.
A partir de 2005 na Empresa JRCOM Engenharia e Consultoria e como Consultor autônomo.
Artigos e publicações podem ser encontrados, no site wirelessbrasil.org

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